A paleontologia como ferramenta de elucidação de crimes

Atualmente temos visto muitas notícias envolvendo crimes dentro da paleontologia. Todos eles são relacionados ao tráfico de peças paleontológicas do Brasil, como é o famoso caso do dinossauro Ubirajara jubatus, que foi levado ilegalmente para a Alemanha e depositado na coleção do Museu de História Natural de Karlsruhe. No entanto, a relação entre a paleontologia e o mundo criminal não se limita somente ao contrabando de fósseis. A paleontologia forense, como é chamado esse ramo da ciência, busca utilizar-se de fósseis como método de investigação.

Essa técnica de perícia criminal ainda é muito pouco conhecida no Brasil. Ela se utiliza principalmente de uma análise integrada de sedimentologia e micropaleontologia para identificação de locais específicos onde ocorreram crimes como assassinato e furto. Explicando em miúdos, a micropaleontologia, como o próprio nome sugere, é a área que estuda fósseis microscópicos. Podem ser carapaças, esqueletos ou dentículos, por exemplo, de diversos grupos de protistas, animais ou vegetais (Figura 1). Esses vestígios microscópicos podem ser muito abundantes em sedimentos. Portanto, muitas vezes, a análise do conteúdo fossilífero de sedimentos encontrado em cenas de crimes, como em solas de sapato, roupas e tapetes de carros, podem ajudar a desvendar sua origem e, com isso, reconstruir os eventos que culminaram no crime.

Figura 1 – Exemplo de microfósseis de foraminíferos (protistas unicelulares que possuem uma carapaça de carbonato de cálcio). Imagem: P.N. Pearson e I.K. McMillan

Um caso bem famoso foi o sequestro de Kenneth J. Young na Califórnia. Na ocasião, o carro utilizado no sequestro foi achado e examinado, revelando uma pegada preservada em um de seus tapetes. As análises da pegada revelaram que se tratavam de sedimentos esbranquiçados que consistiam em uma mistura estranha de diatomáceas (Figura 2) viventes de água doce (popularmente conhecidas como algas unicelulares) e de fósseis de diatomáceas de origem tanto marinha como também de água doce. Os pesquisadores designados para esse caso chegaram à conclusão de que esses sedimentos com uma composição inusitada originaram-se de uma mistura de amostras em uma pedreira. A empresa que explorava essa região também atuava em locais como Nevada e Oregon. Nesses locais eles exploravam sedimentos ricos em fósseis de diatomáceas de água doce. Na pedreira da Califórnia, os sedimentos eram ricos em fósseis de diatomáceas marinhas. Com o fim da atividade na pedreira, os sedimentos explorados em diversas regiões pela mesma empresa acabaram ficando armazenados juntos. Com o tempo, se formou um lago nessa pedreira abandonada e nesse lago passaram a habitar inúmeras diatomáceas vivas de água doce. Com isso, os sedimentos desse lago se tornaram uma mistura única rica em fósseis de diatomáceas marinhas e de água doce (provenientes das amostras) e restos de diatomáceas viventes de água doce. O reconhecimento da origem desses sedimentos permitiu a localização exata onde Kenneth foi mantido refém (na pedreira abandonada), confirmou a utilização do carro para realização do sequestro, e possibilitou a identificação do sequestrador (que utilizava o veículo), que foi preso e condenado à prisão perpétua.

Figura 2 – Diatomáceas marinhas. Imagem: Prof. Gordon T. Taylor, Stony Brook University

Outro exemplo da atuação da paleontologia forense ocorreu na Segunda Guerra Mundial. Os japoneses construíram balões de papel, que carregavam bombas. Eles utilizaram sacos cheios de areia para funcionarem como lastro. Esses balões foram então soltos no Pacífico nos recém descobertos “Jet streams”, que eram grandes correntes de vento na atmosfera que percorriam o Pacífico na direção oeste-leste. O objetivo dos japoneses era que esses balões chegassem aos Estados Unidos e provocassem grandes incêndios nas florestas do noroeste do Pacífico, obrigando os norte-americanos a desviarem suas forças da guerra no Pacífico. Os lastros de sacos de areia foram feitos para serem soltos quando os balões chegassem a certa altitude, para que eles estabilizassem seus pesos. Muitos desses lastros foram soltos no meio do Oceano, mas com a chegada dos balões ao continente, alguns foram soltos perto dos locais em que as bombas não estouraram (Figura 3). Isso permitiu que os sacos de areia fossem recolhidos e examinados. Todos continham o mesmo tipo de sedimento preto e foi interpretado que se tratava de areia próxima do local de fabricação e lançamento dos balões. A análise do sedimento permitiu refutar a ideia inicial de que o local de lançamento seria próximo à costa americana, por meio de submarinos japoneses. Isso porque os pesquisadores encontraram diatomáceas, foraminíferos (um tipo de protozoário capaz de fabricar uma carapaça de carbonato de cálcio) e moluscos que não compunham a fauna norte americana. Portanto, começaram a suspeitar que o local de lançamento era realmente no Japão. As espécies de diatomáceas identificadas permitiram concluir que o local de origem dos sedimentos era uma praia. No entanto, a ausência de corais na areia permitiu inferir que se tratava de uma praia acima da latitude 35º norte, já que a partir dessa latitude os corais desapareciam da costa japonesa. Em seguida, a identificação das espécies de foraminíferos reforçou a possibilidade de se tratarem de areias de praias mais ao norte da costa do Japão, já que as espécies encontradas eram características dessa região. Com a integração de dados mineralógicos e paleontológicos, chegaram à conclusão que os sedimentos realmente tinham origem no norte do Japão, mais especificamente na região de Ichinomiya. Em 1945, os locais de lançamento foram encontrados nessa região e foram bombardeados, pondo fim ao programa dos japoneses. Novamente, a paleontologia foi utilizada para rastrear a origem de sedimentos e isso mostra o potencial da área na elucidação de crimes.  

Figura 3 – Avistamento e recuperação de balões nos EUA. Imagem: “Study of Japonese Free Balloons 1944-1945” (Domínio Público).

Além desses casos internacionais, há um clássico da paleontologia forense que ocorreu no Brasil em 1995. A empresa Milo Som Ltda. importava aparelhos eletrônicos, que percorriam o caminho do Porto de Santos a cidade de São Paulo em “containers” e lá permaneciam armazenados. Dois “containers” foram furtados, e os aparelhos foram substituídos por sacos de areia. Após o crime, foi necessário abrir uma investigação do local em que o furto ocorrera, uma vez que existiam duas companhias de seguro responsáveis pelo equipamento eletrônico, uma no Porto de Santos e outra no local de armazenamento na cidade de São Paulo. Para isso, foram chamados dois pesquisadores (Paulo Eduardo de Oliveira e Kenitiro Suguio) para realizarem análises mineralógicas e do conteúdo fossilífero das areias, para determinação do local em que ocorreu o furto e a substituição por sacos de areia. As primeiras análises mostraram que esses sedimentos arenosos eram provenientes do Rio Ribeira de Iguape (SP), onde pode ter sido peneirada e comercializada como areia de construção civil. Os sedimentos mais argilosos e orgânicos eram ricos em grãos de pólens e diatomáceas, e tanto o conjunto do tipo de pólen como as espécies de diatomáceas foram identificados como sendo tipicamente de mangues em associação com vegetação de Restinga/Mata Atlântica de região próxima a Baixada Santista. A combinação de todos os dados permitiu chegar à conclusão de que o furto ocorreu na região da Baixada Santista. 

É importante destacar que muitas vezes a análise do conteúdo orgânico dos sedimentos mistura elementos fósseis e elementos biológicos atualmente viventes, como vimos no caso do sequestro de Kenneth J. Young. Portanto, o paleontólogo forense deve saber lidar com todo tipo de dado orgânico, vivente ou não vivente. Além disso, deve-se sempre ter em mente que a paleontologia é mais uma ferramenta importante para elucidação de crimes e que seus dados devem ser avaliados em conjunto com dados geológicos, biológicos e, em alguns casos, até mesmo arqueológicos para que se obtenha uma base de dados confiável.

Referências e materiais adicionais

  • De Oliveira, P. E., & Suguio, K. (2005). Estudos quaternários e sua aplicação forense: caso do estudo containers furtados no Estado de São Paulo. In Boletim de Resumos do X Congresso Brasileiro da ABEQUA–Guarapari (pp. 1-5).
  • Sacchi, E., & Nicosia, U. (2013). Forensic paleontology: A tool for “intelligence” and investigation. Journal of Forensic Sciences58(3), 651-657.

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