A Escalada de Ataques aos Indígenas no Pós-Eleições de 2026, a PEC 48 e o Futuro Socioambiental do Brasil

Ataques e Ameaças Pós-Eleições 2026

O encerramento do processo eleitoral de 2026 veio acompanhado por uma alarmante onda de retaliação e agressão política direcionada a comunidades indígenas em diversos estados brasileiros. Em vez da pacificação esperada após o pleito, lideranças e aldeias inteiras tornaram-se alvos de intimidação armada e invasões orquestradas por grupos locais.

Ceará: O território do povo Tremembé da Barra do Mundaú, no município de Itapipoca, foi alvo de um incêndio criminoso, que foi denunciado no dia 29 de outubro.

Mato Grosso do Sul: As etnias Guarani Kaiowá e Terena enfrentaram tentativas de assassinato, atos de coação e agressões físicas. Na Aldeia Sassoró (município de Tacuru), veio à tona um áudio atribuído a um servidor municipal sugerindo o envenenamento da água do caminhão-pipa que abastece a comunidade como punição ao voto indígena. No mesmo período, foram registrados atropelamentos propositais na rodovia MS-289, entre Coronel Sapucaia e Amambai, além de rondas intimidatórias de caminhonetes armadas ao redor dos territórios.

Rio de Janeiro: A Prefeitura de Paraty acionou a Justiça Federal para tentar suspender a Portaria Declaratória da Terra Indígena Tekoha Jevy, alegando falta de consulta à comunidade caiçara local. No entanto, o histórico do processo contradiz essa versão: a demarcação foi iniciada em 2001 a pedido dos próprios povos Guarani Mbyá e Ñandeva, contando com estudos antropológicos concluídos e aprovados pela Funai em 2017 para uma área de 2.370 hectares. Além disso, o prosseguimento do processo foi ordenado por decisão judicial transitada em julgado em 2023 após ação do MPF, enquanto a própria prefeitura, que anteriormente havia declarado não ter interesse na área, mudou de postura apenas em maio de 2026 para tentar barrar o reconhecimento do território.

Rio Grande do Sul: Na Terra Indígena Votouro, episódios de violência política marcaram o cenário eleitoral. Segundo relatos e depoimentos de moradores, a oposição política a uma liderança local alinhada a candidaturas bolsonaristas culminou na demissão arbitrária de trabalhadores contrários à sua linha política e em confrontos que deixaram três indígenas mortos.

Pará e Região Amazônica: Na Terra Indígena Apyterewa (São Félix do Xingu), áudios revelaram pecuaristas e fazendeiros organizando a reocupação ilegal do território no dia do segundo turno das eleições. No Tapajós, a liderança e ex-candidata Alessandra Korap Munduruku foi vítima de intensa onda de ameaças e assédio virtual promovidos por garimpeiros.

Roraima: Na Terra Indígena Yanomami, garimpeiros ilegais contataram jovens indígenas oferecendo dinheiro para a desobstrução de pistas clandestinas de pouso, amparando-se na expectativa eleitoral de liberação da mineração em terras protegidas.

Paraná: A sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) na Terra Indígena São Jerônimo foi atacada com artefatos explosivos poucos dias após o primeiro turno eleitoral.

Fonte: O Globo

A PEC 48 e o Marco Temporal

A escalada da violência no campo conecta-se diretamente às incertezas e disputas jurídicas travadas em Brasília. A tese do Marco Temporal defende que os povos indígenas só teriam direito à demarcação das terras que estivessem sob sua posse física ou em disputa judicial comprovada no dia 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição Federal. O Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmou a inconstitucionalidade dessa tese — como na apreciação do Tema 1.031 em 2023 e no julgamento conclusivo das Ações Declaratórias de Inconstitucionalidade (ADIs 7582, 7583, 7586 e ADC 87) em dezembro de 2025. A Corte reconheceu que o direito indígena sobre suas terras é originário (anterior à criação do próprio Estado brasileiro) e que a demarcação possui caráter meramente declaratório. Contudo, a reação legislativa no Congresso Nacional manteve o cenário de forte insegurança jurídica:

– Aprovação da Lei 14.701/2023: O Congresso Nacional aprovou a lei para forçar a validade do Marco Temporal. Embora partes do texto tenham sido anuladas pelo STF em dezembro de 2025, o tribunal manteve pontos criticados pelas organizações indigenistas, como a ampliação de indenizações por “terra nua” a não indígenas e permissões que dificultam o processo administrativo de restituição territorial.

– Aprovação da PEC 48/2023 no Senado: No intuito de contornar os acórdãos do STF, o Senado aprovou a PEC 48/2023 em dezembro de 2025 (por 52 votos a 15), buscando inserir o Marco Temporal diretamente no texto da Constituição Federal. A proposta agora aguarda tramitação na Câmara dos Deputados.

– Paralisação de Territórios Homologados: Argumentos baseados nessa tese continuam sendo usados por interesses privados para judicializar e paralisar territórios já demarcados e formalmente reconhecidos, como a Terra Indígena Aldeia Velha (BA), do povo Pataxó, e a Terra Indígena Manoki (MT). Além disso, projetos como o PDL 717/2024 tentam sustar a homologação das Terras Indígenas Toldo Imbu e Morro dos Cavalos, em Santa Catarina.

Fonte: Agência Brasil

A Importância Indígena na Preservação Natural e Cultural

Defender a integridade física e territorial dos povos indígenas é fundamental para a própria sobrevivência ecológica e cultural do Brasil. Dados científicos e relatórios internacionais demonstram que as Terras Indígenas constituem as barreiras mais eficazes contra o desmatamento e a degradação ambiental.

Barreira Contra o Desmatamento: Nos últimos 30 anos, as Terras Indígenas perderam apenas 1% a 1,2% de sua vegetação nativa, enquanto as propriedades privadas registraram uma perda de 20,6% de suas florestas originais.

Mitigação Climática: Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU/FAO e FILAC) revela que 45% das florestas tropicais intactas da América Latina estão em territórios indígenas. As reservas indígenas em países como o Brasil evitam a emissão anual de 43 a 60 milhões de toneladas de CO₂, operando com um custo de conservação de 5 a 42 vezes menor do que tecnologias industriais de captura de carbono.

Manejo Ancestral e Biodiversidade: Análises biológicas e arqueológicas revelam que espécies vegetais fundamentais para a economia e alimentação mundial — como a castanheira, a araucária, a mandioca, o cacau e a pupunha — foram cultivadas e disseminadas pelo manejo indígena ao longo de milênios. Além disso, a fertilização do solo por meio da Terra Preta de Índio transformou ao menos 12% da superfície da calha amazônica.

Patrimônio Cultural e Imaterial: O conhecimento tradicional e os sistemas de cultivo das comunidades originárias são reconhecidos como patrimônio nacional, a exemplo do Sistema Agrícola do Alto Rio Negro, tombado pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil.

Transmissão de Saberes, Línguas e Espiritualidade: As Terras Indígenas não são apenas espaços físicos, mas garantem a existência coletiva, a transmissão intergeracional de conhecimentos, línguas, espiritualidade e práticas culturais dos povos originários

Preservação de Sítios Arqueológicos: As terras sob posse indígena abrigam sítios arqueológicos de grande valor histórico para a memória do país — a exemplo do território ancestral da Terra Indígena Aldeia Velha, do povo Pataxó.

Fonte: Agência Brasil

Como Podemos Ajudar?

Diante do agravamento da violência e das ameaças legislativas aos direitos fundamentais dos povos originários, podemos atuar ativamente em diversas frentes:

– Efetuar Denúncias Formais ao Ministério Público: Áudios, vídeos e registros de intimidação, violência eleitoral ou ameaças contra comunidades indígenas devem ser denunciados diretamente aos órgãos federais. O canal digital MPF Serviços permite realizar denúncias gratuitas e online ao Ministério Público Federal.

– Pressionar o Congresso Nacional Contra a PEC 48: Acompanhar o voto dos parlamentares e cobrar posicionamento de deputados federais quanto à votação da PEC 48/2023 e do PDL 717/2024.

– Apoiar Instituições Indigenistas e de Direitos Humanos: Fortalecer e dar visibilidade às ações de organizações de resistência e amparo jurídico como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Fundo Brasil de Direitos Humanos.

– Exigir Rastreabilidade e Consumo Responsável: Cobrar que empresas e cadeias produtivas comprovem que produtos agropecuários ou minérios não tenham origem em áreas de invasão de terras indígenas, garimpo ilegal ou desmatamento.

– Combater a Desinformação: Compartilhar denúncias e materiais produzidos pelas próprias lideranças originárias, promovendo o debate em redes sociais, universidades e comunidades locais.

– Participação ativa: Engajar em mídias das redes sociais de organizações indígenas e que lutam pelos direitos dos povos originários como a APIB, citada anteriormente, e outras organizações como: APOINME (Associação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), ARPINSUL (Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul), Arpinsudeste (Articulação dos Povos Indígenas da região Sudeste), Conselho do Povo Terena, COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), Aty Guasu (A Grande Assembleia do Povo Guarani Kaiowa), além de acompanhar notícias de fontes confiáveis como: Mídia Indígenas Oficiais.

Além de acompanhar e engajar nas redes, incentivamos a participação de protestos e atividades presenciais que estes grupos estão incentivando para dar visibilidade aos ocorridos e lutar pelos direitos dos povos originários.

Fonte: Página oficial do Instagram do Governo Federal: @govbr

Referências:

https://www.youtube.com/watch?v=jchwm0HBoLs

https://apublica.org/2026/10/ameacas-perseguicao-e-mortes-indigenas-denunciam-aumento-da-violencia-politica/

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-10/indigenas-de-ms-denunciam-casos-de-violencia-e-ameacas-apos-eleicao

https://apiboficial.org/2026/08/05/nota-politica-da-apib-sobre-o-marco-temporal-e-as-graves-ameacas-aos-direitos-dos-povos-indigenas-do-brasil/

https://www.fundobrasil.org.br/blog/povos-indigenas-e-a-floresta-por-que-essa-relacao-e-tao-importante/

https://agemt.pucsp.br/noticias/povos-indigenas-relatam-ataques-apos-resultado-das-eleicoes

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-08/relatorio-aponta-258-indigenas-assassinados-e-mais-violencia-em-2025

https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-08/stf-julga-recursos-contra-partes-da-decisao-que-anulou-marco-temporal

https://www.mattosfilho.com.br/unico/stf-lei-marco-temporal/

https://terrasindigenas.org.br/pt-br/faq/tis-e-meio-ambiente

https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/10/31/brasil-teve-um-caso-de-violencia-politica-contra-indigena-a-cada-tres-dias-no-periodo-eleitoral-de-2026-diz-levantamento.ghtml

https://www.instagram.com/p/DfIAPe7CaiW/

https://www.instagram.com/p/DfNjXaPGmzn/

https://www.instagram.com/govbr/

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