Bioarqueologia

Por: Victor Guida

A Bioarqueologia é um campo de pesquisa que une a Antropologia Biológica e a Arqueologia, e tem como objeto de estudo esqueletos humanos encontrados dentro de um contexto arqueológico.

A partir da identificação e análise desses remanescentes humanos, a pessoa que atua na bioarqueologia busca obter informações sobre grupos humanos que viveram no passado, seja há 10 mil anos ou no século XIX. Essas informações podem nos ajudar a compreender como era a vida desses grupos e até mesmo a encontrar respostas para questões atuais da nossa sociedade.

Sepultamento com dois esqueletos Pré-Colombianos sendo escavados. Imagem: João Carlos Moreno de Sousa

É comum que os esqueletos achados nos sítios arqueológicos estejam incompletos ou muito fragmentados, dificultando bastante para que o(a) bioarqueólogo(a) consiga identificar esses ossos e realizar as análises desejadas. Por isso, é fundamental que o(a) bioarqueólogo(a) tenha um bom conhecimeto sobre a anatomia do esqueleto humano (ossos e dentes).

Os ossos e dentes são matéria viva e reagem a estímulos internos (do corpo) e externos (do meio ambiente) e com isso podem nos dar informações sobre uma diversidade de questões, incluindo:

1) Ancestralidade – A realização de análises de DNA ancestral (aDNA) e a observação de variações hereditárias na morfologia dos ossos permitem identificar, a depender do contexto, se os esqueletos encontrados em um sítio arqueológico têm alguma relação de parentesco. No caso do aDNA, em certos casos também é possível obter indícios se o esqueleto encontrado é referente a algum grupo humano específico.

2) Dieta – Por meio de estudos químicos (isótopos estáveis) de ossos e dentes e de análises de saúde dental (cárie, tártaro, etc.) é possível ter uma estimativa de como era a dieta da pessoa. Por exemplo, se ela comia muito açúcar, se comia mais frutos do mar do que animais terrestres, ou se comia muitos vegetais.

3) Doença – Existem doenças que atingem os ossos e dentes ou acabam deixando marcas e alterações neles. Ao estudar a presença de doenças nos esqueletos no contexto arqueológico é possível obter informações sobre a ocorrência de epidemias, a higiene da população, a origem geográfica de algumas doenças, como se espalharam pelo mundo, e como os doentes eram tratados e vistos em uma sociedade.

4) Atividades e hábitos cotidianos – O esqueleto reage a pressões mecânicas que são exercidas sobre ele de forma repetitiva ao longo do tempo. Quando se faz certas atividades com grande frequência (por exemplo, remar um barco para ir pescar todos os dias pela manhã), elas alteram o esqueleto em áreas específicas que permitem que bioarqueólogos(as) identifiquem quais eram essas atividades. Assim, é possível saber, por exemplo, a profissão de uma pessoa e até mesmo alguns costumes, como o hábito de fumar cachimbo.

Dra. Mercedes Okumura. Imagem: Renata Araújo

Sobre o autor:
Victor Guida é bioarqueólogo formado pela UERJ com mestrado pelo Museu Nacional da UFRJ, onde faz seu doutorado.

Para saber mais sobre o assunto:

Buikstra, J.E. & Beck, L.A. (2006) Bioarchaeoogy: the contextual analysis of human remains. Academic Press, Massachusetts.

Katzenberg, M.A. & Saunders, S.R. (2008) Biological anthropology of the human skeleton. 2ªed. Wiley & Sons, New Jersey.

Larsen, C.S. (1997) Bioarchaeology: interpreting behaviour from the human skeleton. Cambridge University Press, Cambridge.

Neves, W.A. (2013) Um Esqueleto Incomoda Muita Gente… Editora da Unicamp, Campinas.