Maior trilha de pegadas humanas do Pleistoceno tardio revela importantes interações paleoecológicas

Por: Enrico Baggio

Um estudo sobre a maior trilha de pegadas humanas do Pleistoceno tardio já encontrada foi recentemente publicado no conceituado periódico científico internacional “Quaternary Science Reviews”, da Elsevier. O artigo, publicado por uma equipe interdisciplinar de cientistas de diversas universidades, estudou diversos exemplares de uma trilha de pegadas humanas que registra uma trajetória pleistocênica de mais de um quilômetro e meio.

O achado foi feito no White Sands National Park (WHSA), localizado no Novo México, Estados Unidos. As pegadas foram feitas em um período de grande umidade do Holoceno Inicial (há mais de 10 mil anos), quando diversos corpos de água estavam presentes na região que hoje é o parque nacional. Esse ambiente úmido de corpos de água e possíveis chuvas e tempestades facilitou o registro da longa trilha.

O estudo analisou 90 das 427 pegadas encontradas. As análises buscaram determinar a idade dos indivíduos, a direção do trajeto e até mesmo a velocidade empregada na caminhada. Esse registro icnológico (ou seja, de registros não-orgânicos fossilizados) não se limita aos vestígios humanos. Animais da megafauna pleistocênica, mais especificamente de mamutes e preguiças-gigantes, também deixaram suas marcas nas trilhas do parque nacional. As marcas encontradas, então compõe um importantíssimo registro icnológico, onde está registrado não só o comportamento do indivíduo humano que ali passou, mas da megafauna pleistocênica que convivia no mesmo ambiente.

As Trilhas

O indivíduo que passou no ponto estudado deixou duas trilhas diferentes em direções opostas, sendo uma de norte a sul e outra de sul a norte. Além disso, foi detectado que, enquanto a maior parte da trilha provavelmente foi feita por somente uma pessoa, esta estava acompanhada de uma criança, que foi carregada no colo durante grande parte do trajeto.

Trilha deixada pelo(s) indivíduo(s) que atravessaram a região

Pegadas de criança de menos de três anos de idade foram encontradas em um único ponto da trilha, deixadas em um momento no qual a criança foi colocada no chão por algum motivo e depois soerguida ao colo novamente. Enquanto isso, a idade da pessoa que carregava a criança foi calculada em torno de 12 a 14 anos de idade. No caso de ter sido uma mulher, o indivíduo poderia então ser mais velho, visto que o crescimento do pé feminino termina em uma idade menos avançada que o do sexo oposto.

Além dessa importante interação entre um adolescente e uma criança, registros de um mamute e de uma preguiça gigante foram encontrados em pontos diferentes da trilha, em direta interação com as pegadas humanas. Essa interação é tão direta porque em uma das trilhas humanas (direcionada ao norte), a pegada da megafauna sobrepõe a humana, enquanto na outra trilha (direcionada ao sul) deixada pelo indivíduo humano, o oposto acontece. Foi justamente essa interação que permitiu uma noção acerca da data em que esse registro foi produzido. Considerando as informações acerca da presença do homem na América do Norte e da extinção das preguiças gigantes e mamutes, os pesquisadores chegaram a um consenso que a trilha foi produzida em algum momento antes de 10.000 anos A.P., já que depois disso a megafauna se extinguiue a última era glacial acabou.

Interação entre pegadas de humanos e mamutes

Sobre essa relação, o professor Dr. Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, comentou com exclusividade ao site Arqueologia e Pré-História: “O artigo apresenta um caso muito interessante de preservação de pegadas humanas em clara associação com megafauna, ilustrando um daqueles raros casos em que temos uma ‘fotografia’ do passado, onde eventos efêmeros acabam por ser preservados de maneira excepcional”, disse Araujo. “Isso acende a imaginação e nos fez ‘ver’ uma jovem mãe carregando seu filho na beira de um lago, a lama viscosa e escorregadia atrapalhando a caminhada em passo rápido, em uma paisagem potencialmente perigosa, cheia de animais gigantescos e sem uma mísera árvore para subir (como se adiantasse subir em uma árvore em um local onde existem tigres dente-de-sabre)”, disse também o professor Araujo em referência a situação apresentada no artigo e trazendo para a imaginação os registros de outro animal que, por mais que não tenha sido identificado nas pegadas, também habitou a paisagem da última era do gelo no atual White Sands National Park.

Importantes implicações foram extraídas a partir desta interação. Enquanto não há registro, pelas pegadas, de que o mamute tenha alterado seu comportamento com a presença das pegadas humanas ali, o contrário acontece com a preguiça-gigante. Pelo posicionamento das pegadas, foi possível captar que a preguiça assumiu uma postura diferente ao encontrar as pegadas humanas, chegando a assumir uma momentânea postura bípede afim de reconhecer o terreno. Uma breve mudança no trajeto também ficou registrada após esse encontro da preguiça com as marcas humanas no substrato.

Interações entre pegadas de humano e preguiça-gigante

          Um terreno traiçoeiro

Não obstante a caminhada de longa distância, com o peso de uma criança, em um ambiente compartilhado com animais da megafauna, a travessia feita pelos habitantes da região hoje chamada de White Sands National Park não era facilitada pelo tipo de solo. Por mais que a superfície atravessada fosse plana, o substrato era lamoso e escorregadio, como é típico de regiões úmidas com alta presença de corpos de água.

Os traços encontrados mostram uma assimetria morfológica que dificilmente estava associada a uma patologia, e provavelmente se deu à mudanças de posturas ao longo da caminhada no terreno deslizante. Outro fator que pode ter colaborado para essa assimetria, segundo os pesquisadores, foi o peso da criança, que gera um equilíbrio desigual na distribuição de peso durante a caminhada.

Fotografia da trilha dupla deixada pelo(s) indivíduo(s)

Sobre essas análises, que são em sua essência interdisciplinares, o professor Dr. Astolfo Araújo ressalta: “Além de ser interessante por esses motivos óbvios, o artigo é didático por mostrar a maneira como funciona a Arqueologia. Temos uma gama enorme de métodos envolvidos, que vêm da Geologia e da Biologia, e a aplicação de diversas técnicas que permitiram construir a interpretação cujo apelo é inegável para o leigo. Temos o uso pesado de métodos estatísticos para suportar a interpretação. Por fim, temos possibilidades abertas que talvez jamais serão resolvidas (era mesmo uma pessoa só, ou talvez dois indivíduos muito parecidos? a criança estava sendo carregada na ida e na volta? o substrato poderia estar ligeiramente mais duro na volta, portanto menos escorregadio?). Essas incertezas, que fazem parte da ciência, são respondidas de maneira probabilística, por meio das estatísticas apresentadas. Não nos dão e nunca darão certeza absoluta de nada, mas indicam fortemente por onde podemos seguir.

Apesar disso, o homem ou mulher pleistocênico(a) que por ali passou não diminuiu o passo frente às adversidades. No caminho de um destino ao outro, o caminho foi quase totalmente retilíneo e sem mudanças no trajeto, sugerindo um destino claro na mente do indivíduo. Mesmo em um terreno úmido e escorregadio, manteve uma velocidade considerável, variando entre 1.6 e 1.8 metros por segundo, segundo cálculos dos pesquisadores. Além de uma velocidade considerável, outras ações ficaram registradas nas marcas de pegadas, como passos mais alongados, feitos possivelmente afim de evitar poças ou áreas mais encharcadas. Esses cálculos, assim como as análises matemáticas feitas com o objetivo de determinar a idade dos indivíduos e os métodos utilizados para entender a assimetria das pegadas compõe uma parte importante da arqueologia que, apesar de parecer mais complicada, são essenciais para o entendimento profundo do sítio.

Por fim, cabe dizer que a “fotografia” da mãe e seu filho em uma paisagem um tanto ameaçadora foi construída com base em dados aparentemente “áridos”. Muitas medições e muita estatística foram usadas em prol de um resultado final que podemos considerar poético. Protocolos, métricas e estatística não tiram a poesia da Arqueologia. Ao contrário, o artigo demonstra muito bem que em Arqueologia não pode haver poesia sem interdisciplinaridade e medidas”, comentou Araujo.

O achado feito no White Sands National Park se mostrou um valiosíssimo registro icnológico para o entendimento do comportamento humano e das interações paleoecológicas entre humanos e animais da megafauna do Novo México, constituindo-se como um dos registros icnológicos mais ricos do mundo.

Para ler o artigo original:

Bennett, M.R. et al. (2020). Walking in mud: Remarkable Pleistocene human trackways from White Sands National Park (New Mexico). Quaternary Science Reviews.

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