Novo crânio encontrado na China pode ser o primeiro da espécie Homo denisovensis ou uma nova espécie humana

Por Enrico Baggio

O ano era 1933. A China, nessa época, estava em meio a uma ocupação japonesa. Operários chineses estavam trabalhando na construção de uma nova ponte para o Rio Shonghua, na província chinesa de Heilongjiang. Esses mesmos operários, trabalhando na região, encontraram o crânio que, somente nessa semana, no dia 25 de junho de 2021, foi publicado como uma provável nova espécie humana. Na época, os trabalhadores chineses, receosos de que o crânio poderia ser encontrado pelos japoneses, esconderam o achado em um poço abandonado. Em 2018, um dos homens que tomou a ação de esconder o espécime contou ao seu neto sobre o esconderijo. O neto, por sua vez, doou o fóssil para a Universidade de Heibei GEO.

Essa é a fantástica história por trás do espécime agora conhecido como “crânio de Harbin”. No dia 25 de junho 2021, três artigos sobre o crânio foram publicados na revista Innovation, tratando-o como possível evidência de uma nova espécie da linhagem humana. Segundo o paleontólogo Qiang Ji e seu time, que estiveram envolvidos na publicação do artigo, o crânio tem grandes proporções, um tórus supraorbital (que é um osso localizado acima das órbitas dos olhos) bem largo e destacado, uma face larga, principalmente se comparada a altura do crânio e órbitas oculares largas e quase quadradas. As proporções do crânio o diferenciam dos crânios conhecidos para diversas espécies do gênero Homo, como os Homo erectus, Homo heidelberghensis e Homo rhodeniensis, todos com crânios menores. As espécies com tamanho craniano mais próximo do crânio de Harbin são os neandertais e nós, os Homo sapiens.

Crânio de Harbin HBSM2018-000018(A), em visão frontal (A) e lateral (B). Imagem retirada de Qiang Ji (2021).

Além disso, o crânio de Harbin carrega outras similaridades com os crânios da nossa espécie: sua face não muito alta e seu prognatismo facial (nome dado a projeção dos ossos da mandíbula, como visto em alguns primatas, como os chimpanzés, e também nas primeiras espécies hominínias) reduzido são características em comum com os crânios dos Homo sapiens. Por outro lado, ele apresenta diferenças claras em um dos ossos do crânio, o osso parietal, e também um tórus supraorbital muito maior que o nosso. Em relação aos neandertais, o crânio de Harbin apresenta uma profundidade de órbita maior, ângulo de um dos ossos do crânio mais largo que o dos neandertais e o único dente encontrado no crânio, um molar, tem proporções muito maiores que os molares dos neandertais.

Os cientistas conseguiram também, a partir do estudo do crânio, pensar algumas características sobre o modo de vida desse indivíduo: pelas grandes proporções do crânio e do tórus supraorbital, os cientistas acreditam que o indivíduo provavelmente era do sexo masculino. As características de sua órbita sugerem olhos profundos, enquanto as medições da abertura do nariz indicam que o indivíduo possuía um nariz grande e largo. Por fim, foram medidas bochechas pequenas e planas, uma mandíbula robusta e uma boca larga com dentes grandes. Como o crânio foi encontrado em uma região de altas latitudes e, consequentemente, baixas temperaturas, os pesquisadores concluíram que a espécie estaria adaptada para essas condições. O tamanho e o formato do nariz, por exemplo, seriam ideais para aquecer e umidificar o ar. O crânio robusto indica um corpo também robusto, ideal para temperaturas baixas.

Reconstrução facial do crânio de Harbin. Visão frontal (A) e visão lateral (B). Imagem retirada de Xijun Ni (2021).

Os pesquisadores fizeram também uma datação dos sedimentos encontrados junto ao fóssil. Depois de uma análise cuidadosa das evidências, foi concluído que o crânio tem uma idade de, no mínimo, 146.000 anos atrás. Isso coloca o crânio no fim de um período chamado “Pleistoceno Médio”, que durou de 781.000 anos atrás até 126.000 anos atrás. Foi um período importante para a espécie humana e, na época em que o indivíduo do crânio de Harbin estava vivo, há 146 mil anos, outras espécies humanas também habitavam o planeta: nós, os Homo sapiens, estávamos na África e no Oriente Médio. Os neandertais estavam em diversos lugares da Europa. Sobreviventes da espécie Homo erectus estavam habitando a Ilha de Java.

A partir das comparações feitas com as outras espécies, os pesquisadores concluíram que a espécie do crânio de Harbin não era de espécies hominínias mais antigas, como os já mencionados Homo erectus, Homo heidelberghensis e Homo rhodeniensis. Eles também descartaram, a partir das mesmas comparações, que se tratasse de um indivíduo Homo neanderthalensis ou de um Homo sapiens, por mais que tenham concluído que o fóssil tem mais similaridade com os Homo sapiens que com os neandertais. A conclusão dos pesquisadores chineses, então, foi que se tratava de uma nova espécie de uma linhagem muito próxima aos Homo sapiens. Essa espécie seria o Homo longi, ou Homem Dragão (Long significa Dragão em mandarim).

Crânio de Harbin em diversos ângulos. (A) Visão anterior; (B) Lateral, esquerda; (C) Lateral, direita; (D) Visão posterior; (E) Visão superior; (F) Visão inferior. Imagem retirada de Xijun Ni (2021).

Entretanto, a repercussão internacional em torno do crânio de Harbin trouxe também discordâncias de diversos pesquisadores. Alguns, por exemplo, acreditam que os pesquisadores chineses se precipitaram ao considerar o crânio de Harbin como uma nova espécie. Alguns desses pesquisadores, como é o caso de Chris Stinger, que trabalha no Museu de História Natural de Londres, acredita que o fóssil seja um crânio de um Homem de Denisova, também conhecido como Homo denisovensis. Outros pesquisadores também apoiam essa visão, principalmente pela similaridade entre o dente do crânio de Harbin com os dentes Denisovanos. O Homo denisovensis é uma espécie de hominídeo que foi descoberta na Sibéria, na Caverna de Denisova. Apesar de contar com poucos fósseis (um fragmento de crânio, dois dentes e uma falange), sabemos que os Homo denisovensis tinham uma proximidade com os neandertais e com a nossa espécie e que, inclusive, essas espécies intercruzaram. Isso foi descoberto a partir de análises de DNA, quando foi descoberto que, até hoje, algumas populações humanas carregam genes dessa espécie em seu DNA.

Um dos caminhos para solucionar essa questão é a tentativa de extrair DNA do dente ou de um fragmento do crânio de Harbin. Em uma carta com comentários sobre o fóssil, o já mencionado Chris Stinger trata da necessidade de novos passos e da importância do fóssil: “Eu também considero Harbin como um possível Denisovano, por mais que ainda precisa de muito trabalho nisso. Mas essas diferenças de opinião não devem desviar o extraordinário novo pedaço do quebra-cabeça ,da evolução humana, um fóssil que vai continuar a adicionar importantes informações durante muitos anos” (tradução nossa).

Assim como o mistério do fóssil de Harbin não está resolvido, suas contribuições importantes à história da evolução humana não estão pertos de acabar. Esse novo achado se soma aos outros tantos importantes fósseis que nos ajudam a comprovar e entender a história evolutiva do nosso gênero. Cabe agora aos biólogos, paleoantropólogos e arqueólogos continuarem a dar os passos necessários para aprofundar ainda mais o nosso conhecimento sobre essa história.

Para ler os artigos originais:
Xijun, Ni. et al (2021) Massive cranium from Harbin in northeastern China establishes a new Middle Pleistocene human lineage. The Innovation.

Qiang, J. et al (2021) Latte Middle Pleistocene Harbin cranium represents a new Homo species. The Innovation.

Qinfeng, S. et al (2021) Geochemical provenancing and direct dating of the Harbin archaic human cranium. The Innovation.

SOBRE O AUTOR DA MATÉRIA:

Enrico D. B. Di Gregorio é graduando em arqueologia e estagia fazendo pesquisas com Paleontologia no Laboratório de Paleontologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e com Arqueologia no Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo. Faz parte da equipe do Arqueologia e Pré-história, atuando na redação de textos de divulgação científica.

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