A Monumental Tumba de um Padeiro

Por Gabriel Peixoto

Marcus Vergilius Eurysaces foi um padeiro romano – de origem grega – e um liberto (ex-escravo) que morreu em meados do primeiro século antes de Cristo (c. 50 a.C.). Como é comum, pouco sabemos da vida pessoal de libertos, mas esse indivíduo em específico teve uma ideia para se eternizar na memória coletiva: mandou construir uma imensa tumba para si e para sua mulher. A enorme tumba, como é de costume dos romanos, ficava localizada fora da cidade de Roma e beirando as grandes vias Labicana e a Prenestina. A sua grandeza e particular forma é algo sem precedentes no mundo antigo. A tumba fica aos pés da porta da Porta Maior (Porta Maggiore), à leste da cidade, e foi incorporada junto à muralha Aureliana ainda na antiguidade, sendo ‘redescoberta’ somente em 1838 pelo papa Gregório XVI.

O monumento e a grande muralha Aureliana (Foto de Seorise)

Sabemos muito pouco sobre Eurysaces, mas as inscrições em seu monumento, seu nome de origem grega (que eram comuns em escravos), e o trabalho de padeiro (prática associada com escravos e libertos) leva-nos a acreditar que o padeiro era um rico liberto. Além disso, a evidente ingênua ostentação do monumento é associada com os gostos (ou sua falta) de ex-escravos, reforçando o motivo pelo qual o nouveau riche Eurysaces tenha escolhido tão estranha, peculiar e única tumba. Semelhante situação conferimos na tumba em forma de pirâmide de Gaius Cestius.

Detalhe do lado sul do monumento, no topo – friso – vemos os detalhes da produção do pão (Imagem retirada do site The 21st Century Archaeology)

O monumento funerário do padeiro em si leva-nos, a priori, à um estranhamento. As formas da enorme tumba – com 9m de altura – referem às práticas e aos instrumentos de um padeiro, Beard (2014) diz-nos que a totalidade do monumento remete a imagem de uma padaria. No friso, conferimos gravado na pedra todas as etapas do processo do pão: começando com o recebimento dos grãos até a venda do pão. Apenas o lado leste do monumento não se preservou.

Nessa ilustração do friso do monumento de Eurysaces, podemos conferir todas as etapas do processo de fazer pão. (Imagem retirada do site The 21st Century Archaeology)

Para saber mais:

BEARD, Mary (2014). Ex-slaves and Snobbery. In Confronting the Classics: Traditions, Adventures and Innovations. Profile Books Ltd., London. Capítulo 19, pp. 177 – 184

PETERSEN, Lauren (2003). The Baker, His Tomb, His Wife, and Her Breadbasket: The Monument of Eurysaces in Rome. The Art Bulletin, 85(2), 230–257. https://doi.org/10.2307/3177343

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