O que resta aos arqueólogos após a fala de Bolsonaro sobre o IPHAN? (Artigo de opinião)

Diante da recente fala do presidente da república quando discursava a empresários em um evento promovido pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), me vi na mesma dúvida em que me vejo cada dia que tomo conhecimento de alguma barbaridade dita por este senhor. Deveria eu comentar? Deveria eu manifestar o quanto me sinto ferida em minha própria dignidade ao saber que assim se coloca o presidente desta já frágil república? Se não digo nada, penso que posso já ter me acostumado à barbárie, o que é inadmissível, mas ao mesmo tempo noto que esse acionamento constante das nossas defesas e afronta ao nosso senso moral fazem parte da estratégia. De repente, qualquer frase do presidente parece um deboche grotesco, ao qual eu sou obrigada a me acostumar, se não quiser gastar toda a minha indignação gritando perdida numa terrível “cortina de fumaça”.

Mas voltando à fala ultrajante que me levou a escrever e publicar este texto, a considero diferente de outros ataques gratuitos pois é uma confissão de crime. É, aliás, uma confissão de crime de corrupção (ou seja, exatamente o espantalho contra o qual se colocava Bolsonaro em suas campanhas). Temos acompanhado diariamente, além dos escândalos de corrupção que citam diretamente o nome do presidente e de sua família, ataques às instituições democráticas, a todas as conquistas sociais já alcançadas desde a redemocratização e até mesmo aos princípios da constituição de 88. Mas ainda me impressiona a falta de pudor com que o presidente confessa o crime diante da plateia, que ri, com naturalidade, quando ouve:

“Tomei conhecimento que uma pessoa conhecida, o Luciano Hang, estava fazendo mais uma obra e apareceu um pedaço de azulejo* nas escavações. Chegou o Iphan e interditou a obra. Liguei para o ministro da pasta e [falei]: que trem é esse? Porque não sou inteligente como meus ministros. O que é Iphan? Explicaram para mim, tomei conhecimento, ripei todo mundo do Iphan. Botei outro cara lá. O Iphan não dá mais dor de cabeça para a gente…”

Para mim, além de todos os incômodos internos e indignações enquanto cidadã que esta fala causa, fica um desconforto terrível em relação ao que pode se tornar minha vida profissional. Com um contrato quase assinado para escavar em janeiro, como devo me sentir se me deparo de repente com um pedaço de azulejo*?

Devo temer pela minha vida, pelo meu emprego, ou pelo emprego de um terceiro que receberá meu relatório? O título deste artigo não termina em interrogação por acaso, porque estas dúvidas continuam a pairar. Tenho uma quase certeza (esperança, eu diria), de que este governo não deve durar além do ano de 2022, porém, e o nosso empresariado? Continuará rindo de historietas de corrupção de um presidente e depois colocando patos infláveis pela Avenida Paulista para protestar contra a corrupção e pedir a renúncia de outro presidente? Me parece falho protestar somente contra a figura do presidente quando suas falas de fato representam o pensamento de uma base de apoio, da qual faz parte o nosso empresariado. Só o que posso desejar por enquanto é não encontrar nenhum azulejo*. Pelo menos por enquanto…

Texto de Maria Rita Guedes Carvalho
Bióloga e estudante de mestrado em bioantropologia.

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Nota do editor:

O termo “azulejo” foi equivocadamente empregado pelo presidente da república para se referir às 20 peças arqueológicas encontradas durante as pesquisas arqueológicas no terreno da Havan, no município de Rio Grande, RS. Os materiais encontrados remetem tanto ao período histórico quanto ao período de ocupação ameríndia, podendo ter mais mil anos de idade. Em ocasião anterior, o presidente da república se referiu aos artefatos arqueológicos como “cocozinho petrificado de índio”, numa tentativa de desmerecer o patrimônio cultural frente ao empreendimento de seu amigo Luciano Hang.

Após a infeliz declaração do presidente sobre a interferência nos cargos do IPHAN, a presidente do IPHAN, Larissa Peixoto Dutra (estudante de turismo), foi afastada por ordem de uma juíza. Resta-nos espera que a próxima pessoa nomeada ao cargo tenha a devida competência.

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