Homo sapiens na Europa 10 mil anos antes do que se pensava

Publicado nesta quarta-feira (9), um dente de leite quebrado parece indicar a presença da nossa espécie na Europa há 54 mil anos.

Até semana passada, os sítios arqueológicos europeus mais antigos com a presença de humanos modernos (Bacho Kiro, Bulgária), indicavam que o Homo sapiens teria pisado na Europa apenas por volta de 45 mil anos atrás. No entanto, escavações na Gruta Mandrin, na França indicam a presença da nossa espécie no continente por volta de 54 mil anos atrás.

Indústria Neroniense. (Slimak et al. 2022)

A Gruta Mandrin é conhecida por uma indústria lítica peculiar, chamada Neroniense, encontrada intercalada com outras indústrias líticas típicas de Neandertais. As ferramentas Neronienses se mostram menores e mais padronizadas do que aquelas produzidas pelos nossos primos extintos. Até então, a identidade dos fabricantes dessas ferramentas era desconhecida. Isso porque diferiam das ferramentas neandertais, e não se tinha notícia de outra espécie hominínia na região. A situação muda com o novo artigo que identificou nove dentes hominínios espalhados pelas camadas estratigráficas da gruta. 

Oito dentes foram identificados como Neandertais. Em contraste, um único dente de leite quebrado (Level E, na imagem) – mas preservando partes importantes para o diagnóstico – foi identificado como sapiens! Mais importante ainda, o dente sapiens foi encontrado na mesma camada em que os artefatos Neronienses haviam sido encontrados, ao que tudo indica desvendando a identidade de seus produtores, nós!

Além de identificar os produtores da misteriosa indústria lítica, o dentinho quebrado foi datado em torno de 54 mil anos, mostrando que nossa espécie já se aventurava pela Europa 10 mil anos antes do que imaginávamos. 

Um dos pontos mais intrigantes é a intercalação entre Sapiens e Neandertais no sítio. Resumidamente a gruta foi ocupada quatro vezes no período de 56-40 mil anos. Neandertais ocuparam a gruta primeiro, há mais de 54 mil anos. Em seguida temos uma ocupação sapiens (54 mil anos), responsável pelos artefatos Neronienses e pelo dente encontrado. Posteriormente os Neandertais reocupam o local, no entanto, mais recentemente os Sapiens reaparecem no pedaço. Essa situação toda aponta para um retrato muito mais complexo da entrada dos humanos modernos na Europa, relatando um pouco da dinâmica entre populações das duas espécies.

As fases de ocupação da Gruta Mandrin

Cautela

Por mais que o artigo apresente dados sólidos e muito importantes, ainda há incertezas. Muitos pesquisadores se mantêm receosos com as conclusões do trabalho, isso porque a principal evidência biológica se resume a um único dente incompleto, atribuído ao Homo sapiens

Apesar do fóssil preservar partes importantes, há muito faltando, o que pode comprometer as análises morfológicas. Além disso, é importante notar que não conhecemos completamente a variabilidade morfológica neandertal, o que também é um fator de extrema importância quando tentamos identificar se um fóssil pertence a uma ou outra espécie. 

Atualmente há grande expectativa na recuperação de DNA do sítio arqueológico, assim teríamos a resposta definitiva sobre a identidade do dentinho intrigante. Testes foram realizados na tentativa de extrair DNA de seis dentes de cavalo recuperados na gruta, e assim saber se há chances de se extrair DNA do único dente sapiens recuperado. No entanto, pouquíssimo material genético pôde ser recuperado dos dentes de cavalo, e como a extração de DNA é um processo destrutivo, os pesquisadores optaram por não arriscar danificar o material humano em vão. As esperanças então repousam sobre uma técnica nova de recuperação de DNA a partir do solo da gruta, mas até agora nada foi divulgado sobre isso. Estamos na torcida. 

Quase uma completa surpresa

O trabalho traz importantes evidências de uma ocupação sapiens mais antiga, no continente europeu. Mas não foi o primeiro! Em 2019, uma equipe liderada pela paleoantropóloga Katerina Harvati, foi responsável pela análise dos fósseis encontrados na caverna grega Apidima. Em resumo, foram encontrados dois indivíduos, Apidima 1 e 2. Apidima 2 preserva a face e partes do neurocrânio e foi classificado como um Neandertal, datado em 170 mil anos. Apidima 1 preserva apenas a porção traseira do crânio (occipital e parietal), no entanto essas são regiões muito importantes no diagnóstico de espécies hominínias. A morfologia do fragmento encontrado se assemelha muito à crânios sapiens (especialmente no formato mais arredondado). O que chama atenção em Apidima 1 é a datação, cerca de 210 mil anos! Se o fóssil de fato representar um Homo sapiens, este não seria somente o Sapiens mais antigo fora da África como também um dos mais antigos já encontrados. Mas trazendo a nossa dose de precaução diária, muitos pesquisadores se mantêm céticos, apontando que o crânio pode ter relação com os indivíduos encontrados em Sima de los Huesos, na Espanha, uma população relacionada aos Neandertais. 

Images of scans of skull fragments
Apidima 1 – Katerina Harvati / Universidade de Tubingen

Ainda assim, vale lembrar que outras regiões da Eurásia como Fuyan (China) e Al Wusta (Arábia Saudita) vêm produzindo em paralelo, evidências que corroboram a hipótese de que a expansão da nossa espécie não foi um processo único, e sim uma história de múltiplas migrações. 

Viajantes

Sendo o mais antigo ou não, fato é que os achados na Gruta Mandrin representam um registro de um momento chave na nossa história evolutiva, nossa interação com os Neandertais. O trabalho revela um pouco da dinâmica entre as duas espécies durante nossa entrada na Europa e nos momentos finais da história neandertal, essencial para entendermos como ocorreu este contato. A hipótese anterior apontava que os Sapiens teriam substituído os Neandertais rapidamente, assim que chegaram ao território há 40-45 mil anos. No entanto, o artigo demonstra uma história diferente, identificando episódios de alternância entre espécies no mesmo local. As novas evidências pintam um retrato muito mais complexo do que se esperava, o que concorda com dados de outras partes do mundo, sugerindo que os Sapiens não se dispersaram pelo planeta em um único e repentino evento, mas sim em um processo complexo ainda a ser desvendado.

Referências

Slimak, L. et al. Modern human incursion into Neanderthal territories 54,000 years ago at Mandrin, France. 2022. Science Advances, v. 8.

Hublin, J. J. et al. Initial Upper Palaeolithic Homo sapiens from Bacho Kiro Cave, Bulgaria. 2020. Nature, v. 581.

Harvati, K. et al. Apidima Cave fossils provide earliest evidence of Homo sapiens in Eurasia. 2019. Nature, v. 571.

Groucutt, H. S. et al. Homo sapiens in Arabia by 85,000 years ago. 2018. Nature Ecology & Evolution, v. 2.

Liu, W. et al. The earliest unequivocally modern humans in southern China. 2015. Nature letters, 526.

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