A artista Yacunã Tuxá ilustra a capa desta edição dos Cadernos do Lepaarq “Conexões Atlânticas: Arqueologias do Colonialismo”, com uma mensagem sobre a ancestralidade das pessoas e dos saberes “tradicionais”, um tema cada vez mais central na Arqueologia do Colonialismo (a arte da capa é de Andrea Pedro).
O dossiê tem como editories Marianne Sallum, Francisco Silva Noelli e Tânia Casimiro e traz avanços significativos em diversas áreas da temática a que se dedica e contou com a colaboração de 23 autories que têm o colonialismo no seu campo de radar analítico. Foram considerados diversos lugares ao redor do Oceano Atlântico e fora dele, como no Oceano Pacífico, buscando compreender as relações locais e globais, os deslocamentos voluntários e forçados, os seus motivos distintos e os efeitos que ainda reverberam no presente. Também publica resenhas de dois livros importantes, com coletâneas de textos de diversus autories, relatando pesquisas em vários países, trazendo novas direções sobre o Arqueologia do Colonialismo e Arqueologia Histórica e Ambiente, incluindo relevantes teorias, métodos, reflexões e críticas. Sílvia Alves Peixoto analisou The Routledge Handbook of the Archaeology of Indigenous-Colonial Interaction in the Americas (2021), editado por Lee M. Panich e Sara L. Gonzalez. Sarah Hissa tratou do Historical Archaeology and Environment (2018), editado por Marcos André Torres de Souza e Diogo Menezes Costa.
O dossiê começa com um ensaio de Jaider Esbell Makuxi, homenageando a memória e a criatividade intelectual do ativista e pensador crítico do colonialismo, autor de importantes trabalhos artísticos. Ele iria produzir um artigo inédito para esta publicação, mas partiu precocemente para junto dos “encantados”. Então, para tê-lo conosco, com a sua mensagem duplamente contemporânea e ancestral, escolhemos o ensaio Autodescolonização, uma pesquisa pessoal no além coletivo, refletindo-propondo como reconhecer o nosso lugar e reeducar os nossos sentidos sobre a natureza e as pessoas que nos rodeiam.
Em Colonialismo na Arqueologia Histórica: uma revisão de problemas e perspectivas, Stephen W. Silliman aborda didaticamente o papel fundacional do colonialismo nas pesquisas de arqueologia histórica. São destacados teorias, conceitos e terminologias que foram acionados em diferentes tempos e lugares, examinados sob uma crítica densa dos seus “avanços analíticos e limitações teóricas”, incluindo as consequências “para as comunidades que vivem e vivenciam mundos coloniais”.
Ao considerar a importância de estabelecer “formas alternativas à lógica colonial”, Irislane Pereira de Moraes, Luciana Alves Costa e Luciana Lopes de Jesus, inovaram com pressupostos fundados na afrorreferencialidade, na ancestralidade e na representatividade etnico-racial para fundamentar a sua abordagem teórico-metodológica, com o artigo Arqueologia, lugar de fala e conexões afrodiaspóricas: experiências no território quilombola dos povos do APROAGA – Amazônia Paraense. Trata-se de um modelo relevante para empurrar a construção do conhecimento em Arqueologia para novos patamares no Brasil
A concepção de que as relações coloniais afetaram apenas os territórios fora da Europa, longe dos países colonialistas que investiram no Atlântico, é algo que María Ximena Senatore e Pedro Paulo Funari analisam em Narrativas Insulares na Arqueologia do Colonialismo Moderno Espanhol e Português. Problemas e Perspectivas. Ao examinar as ideologias e teorias produzidas em Portugal e Espanha, o texto reflete sobre as narrativas que silenciaram os efeitos do colonialismo dentro da Península Ibérica até os dias atuais.
Novas perspectivas para interpretar o registro arqueológico em contexto colonial marcam o texto de Juntando cacos: persistência e reexistência nas práticas cerâmicas do vale do Guaporé, escrito porLouise Cardoso de Mello. O uso de dados históricos e das memórias dos moradores da área para analisar o registro arqueológico do Forte Príncipe da Beira, abre um novo e imenso leque de opções teórico-metodológicas para compreender contextos socialmente complexos.
Em Conexões Atlânticas e Persistências Indígenas: Uma Perspectiva da California sobre as relações coloniais na Califórnia, Lee M. Panich destaca como a “memória coletiva da Califórnia está repleta de conexões atlânticas”. Ele considera as abordagens arqueológicas um meio possível para compreender “os impactos da colonização euro-americana” e, principalmente, a persistência indígena no presente.
A partir de um estudo renovador com comunidades da sua própria terra, Gabby Omoni Hartemann navega com segurança para “abordar criticamente a colonialidade arqueológica” em Escavando a Violência Colonial: Arqueologia Griótica e Engajamento Comunitário na Guiana, para destacar a “necessidade urgente de mudanças epistemológicas” na construção do conhecimento arqueológico.
Em Uma arqueologia das formas de abandono: colonialidade e a construção da cidadania na morte, Márcia Lika Hattori reflete sobre a “cidadania da morte” sobre corpos “desconhecidos” pela burocracia estatal.
No artigo Era uma vez a lembrança de uma árvore chamada “do esquecimento”, Renato Araújo da Silva faz uma reflexão crítica fundamentada nas suas perspectivas da filosofia e da curadoria de Arte Africana Brasileira, relevantes para diversas interpretações da Arqueologia Histórica e do Colonialismo.
A análise de materialidades europeias, especialmente portuguesas, têm sido ponto chave para compreender as variadas narrativas sobre os objetos e suas relações em diferentes tempos e lugares. Foi isso que Tânia Casimiro fez no artigo Porque importa saber de cerâmica portuguesa no colonialismo Atlântico?
Em Narrativas da Paisagem Histórica Afroecuatoriana en La Concepción (Carchi-Ecuador), Daniela Balanzatégui revela o desencontro da “história oficial” da “mestiçagem” branca e indígena com as memórias de mulheres e suas materialidades em uma comunidade afroequatoriana, atuando criticamente contra o apagamento.
O artigo Por uma “aliança afetiva” entre a Arqueologia e os Saberes Tradicionais: Contribuições para o entendimento da sociedade moderna no Brasil, de Marianne Sallum, destaca o grande potencial da arqueologia para desenvolver perspectivas não-usuais em afinidade com os “conhecedores” indígenas, afrodescendentes e “tradicionais”. A partir da noção da arqueologia da persistência, mostra como as mulheres articularam práticas e materialidades, nos últimos cinco séculos em São Paulo.
A materialidade de um importante centro de produção agrícola na Baía da Guanabara é tema do artigo A cerâmica do período colonial do Vale do Macacu, Rio de Janeiro: uma perspectiva diacrônica. Após investigar a variabilidade diacrônica das cerâmicas de 4 sítios ocupados entre os séculos XVII e XIX, Cleide Coelho Trindade e Marcos André Torres de Souza concluíram que houve um processo de etnogênese a partir da agência criativa na produção de vasilhas.
A abordagem dos artigos De São Vicente a Jacarepaguá: uma genealogia de mulheres Tupiniquim e a itinerância da Cerâmica Paulista (Sílvia A. Peixoto, Francisco S. Noelli e Marianne Sallum) e “Política da consideração” e o significado das coisas: a persistência de comunidades de práticas agroflorestais em São Paulo (Marianne Sallum e Francisco S. Noelli), mostra dois extremos cronológicos das trajetórias de pessoas Tupiniquim e paulistas em lugares e tempos diferentes. No Engenho do Camorim, fontes históricas e genealógicas do lugar permitiu estabelecer conexão direta entre a linhagem de mulheres ceramistas que viveram ali com as suas parentes e afins relacionadas às produtoras da Cerâmica Paulista em São Vicente, antes de 1550. Noutro contexto, no litoral paulista do século XIX ao presente, foram encontradas outras linhagens que conectam o presente com as Tupiniquim do passado, sobretudo seus descendentes que hoje se chamam de Tupi e Tupi Guarani.
A ideia do dossiê surgiu durante o curso Construindo uma Arqueologia Brasil/Portugal: pessoas, materialidades e colonialismo, organizado em 2021 por editories deste volume, como atividade do projeto temático FAPESP do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas em Evolução, Cultura e Meio Ambiente, no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, em 2021 (https://www.youtube.com/playlist?list=PL3QczBZ6WxxnWkOZa XGXI1fD3RxX6QWTB).
A entrevista de Bruno Pastre Máxima, Marília Oliveira Calazans e Ramón Sarrò, mostra aspectos da atuação de pesquisadores da Universidade de Coimbra no processo de elevação de Mbanza Congo à categoria de Património Cultural da Humanidade pela UNESCO, em 2017. Elxs entrevistaram a coordenadora do projeto de arqueologia Maria da Conceição Lopes, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, falando sobre o importante trabalho realizado no Zaire, onde está situada a cidade e as pessoas que ali têm o lugar de suas memórias ancestrais
Referência
Conexões Atlânticas: Arqueologias do Colonialismo. Cadernos do Lepaarq 19(37), 2022. Disponível em: https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/lepaarq/issue/view/1124
Uma resposta
Lindo volume! Parabéns aos que participam e pela matéria.