A origem da produção cerâmica foi uma etapa crucial no desenvolvimento tecnológico e cultural das sociedades humanas. Pesquisas recentes mostram que as primeiras cerâmicas, interpretadas como recipientes multifuncionais, surgiram de forma independente em diversas regiões do mundo e estavam inicialmente associadas a grupos de caçadores-coletores. Os registros mais antigos do surgimento da cerâmica datam do período entre 20 mil e 12 mil anos AP (antes do presente) e foram encontrados no Leste Asiático, mais precisamente na caverna Xianrendong, na China. Entretanto, vasilhames semelhantes também foram encontrados em outros locais da China, Rússia e Japão entre 17 mil e 15 mil AP.
Na África, o surgimento da cerâmica ocorreu por volta do final do 12º milênio AP. Até recentemente, as pesquisas não conseguiam determinar com certeza se, na África, as cerâmicas foram inventadas em uma ou em várias regiões, mas é fato que essa tecnologia se espalhou rapidamente por uma área que abrange de 2 mil a 3 mil km, estendendo-se pelo centro e pelo sul do Saara, o norte do Sahel e ao longo do Nilo.

Há três regiões associadas às primeiras evidências de cerâmica. A primeira se localiza nos grandes maciços montanhosos do Saara Central, em sítios como Adrar Bous e Tagalagal. A segunda fica no Saara Ocidental e no Vale do Nilo, em sítios como Bir Kiseiba E-79-8, Sarurab e Wadi el Akhdar. A terceira se relaciona com as evidências mais antigas encontradas no sítio de Ounjougou, localizado na fronteira entre o Saara Meridional e o Sahel Setentrional.
As três áreas apresentadas correspondem a modelos e cenários distintos relativos à adoção e difusão da tecnologia cerâmica. O primeiro modelo relaciona a adoção da cerâmica à exploração de recursos aquáticos e grãos silvestres na região do Nilo. O segundo sugere um desenvolvimento independente entre populações remanescentes que habitavam áreas de refúgio, sobretudo em nichos ecológicos específicos, como as áreas montanhosas do Saara Central. Já de acordo com o terceiro, a origem e a difusão da cerâmica ocorreram a partir de uma área hipotética localizada no sul do Saara, como a região de Turkana. Essas hipóteses não são mutuamente excludentes e podem ser simultaneamente plausíveis. No entanto, elas requerem testes sistemáticos.
Os cientistas testaram qual dos três modelos apresentados mais se apoiavam nas evidências disponíveis. É importante ressaltar que a identificação do momento e dos locais de origem enfrenta um desafio considerável devido às limitações das amostragens disponíveis, que são frequentemente pequenas e enviesadas. Sem dúvidas, as verdadeiras datas de origem são anteriores às amostras datadas mais antigas. Além disso, existe uma distância entre os verdadeiros locais de origem e os locais das amostras mais antigas. Desta forma, o tipo de abordagem mais indicado consiste em focar não em sítios individuais, mas na distribuição espacial e temporal das amostras mais antigas, aproveitando todas as informações disponíveis.
No caso deste estudo, foram examinadas uma amostra de 855 datações por radiocarbono de 259 sítios arqueológicos nas regiões do Saara e do Sahel. A abordagem utilizada reconhecia a possibilidade da existência de um único ponto de origem e, ao mesmo tempo, a possibilidade de que a tecnologia cerâmica tivesse sido introduzida de forma independente em diferentes locais. Os resultados das pesquisas rejeitaram a possibilidade de um único ponto de origem para a difusão da cerâmica e apontaram para um modelo multirregional, que se baseia não só em evidências arqueológicas, mas também ambientais, paleobiológicas e paleolinguísticas. Essas evidências sugerem uma dinâmica populacional complexa no norte da África durante o Holoceno inicial e apontam para a sobreposição de zonas de inovação no Saara Central e Oriental, no Sahel e no Vale do Nilo. Dessa forma, concluiu-se que a cerâmica não se originou em uma única área central, mas emergiu em múltiplas regiões de inovação possivelmente interconectadas.
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