
Oceano, um titã que precederia Poseidon em seu reino soberano do mar na era dos olimpianos. Compreendido pelos gregos e romanos antigos como um rio gigantesco, divino e que circularia o globo ou, à época, o mundo conhecido¹.
A despeito da sua origem mitológica, oceanos são grandes extensões de corpos de água salgada que se localizam por grandes extensões do globo terrestre. A divisão entre mar e oceano, ainda que não estrita, é com relação a estarem majoritariamente circundados de terra*. No caso dos Mares, como o Mar Vermelho, Mar Negro ou Mar Mediterrâneo, ainda que possuam contato com os outros mares e oceanos, estes encontram-se circundados, em sua maior parte, pelo continente² .
*Diferentes autores defenderão visões distintas, por vezes, setorizando grandes massas de água (oceanos) em mares sem a necessidade de estarem fechados ou circundados por terra.
Numa perspectiva semelhante, a divisão dos oceanos segue padrões de relevo submarino, distinção média de temperatura, salinidade e até altura relativa. Porém, todos os oceanos podem ser entendidos como um grande só oceano, interligado por estreitos, como o de Bering (entre o Alasca e a Rússia) ou o de Drake (entre a América do Sul e a Antártica). Adicionalmente, o contato entre distintos oceanos não é tão nítido, como entre o Oceano Pacífico e o Antártico, ou entre o Índico e o Pacífico.
Em resumo, oceanos, sejam estes 5 ou 1, são as maiores extensões de água salgada que existem no planeta, cobrindo cerca de 70% de sua superfície. E efetivamente, tornando a Terra, muito mais um planeta água, do que terra.
Qual sua origem na Terra?
A quase onipresença de água em nosso planeta é algo distinto a muitos dos outros corpos celestes em nosso sistema solar, sobretudo em forma líquida e em um planeta rochoso (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte). A partir do momento que o entendimento de evoluções estelares e planetárias foram se desenvolvendo, a dúvida da origem dos oceanos se aprofundou consideravelmente.
Tomemos o que sabemos, atualmente, sobre formação planetária e de sistemas estelares. Incialmente, a partir de uma nuvem molecular gigante, ocorreria o colapso gravitacional, onde os elementos e materiais mais densos e pesados se acumulariam e seriam atraídos para o centro. Em dado momento, a quantidade de material ali presente seria tão grande que originaria uma estrela quando a massa seria suficiente para a fusão nuclear (de maneira bem resumida e pulando várias etapas).

A partir do colapso inicial que daria origem a nossa estrela, o material circundante, que não colapsou, seria reorganizado a partir da influência gravitacional do Sol jovem. Este Sol jovem emitiria rajadas de radiação, denominada de ventos solares, que vaporizariam materiais mais leves e os empurrariam para os confins do sistema solar, isso durante o processo de formação e agregação dos planetesimais que dariam origem aos planetas telúricos (ou rochosos). Dessa maneira, gases como metano (CH4), hidrogênio e a própria água seriam jogados para os confins do sistema solar. Como eles retornaram à Terra?

A primeira hipótese a ser pensada foi nos cometas, corpos celestes errantes, compostos majoritariamente de água (na forma de gelo) e outros gases, como metano e nitrogênio. Todavia, a proporção entre a chamada “água pesada” que possui um deutério (hidrogênio com 1 próton e 1 nêutron) é diferente da proporção da água encontrada em nosso planeta.
Atualmente, existem duas hipóteses complementares para a origem da água em nosso planeta e assim, dos oceanos: A dos Condritos Carbonáceos e a origem endógena. Esta primeira é mais antiga e bem mais aceita.

Condritos Carbonáceos são um tipo de meteorito que possuem uma grande proporção de carbono (até 3%, o que é muito para esse tipo de objeto) e que são bastante porosos, possuindo a capacidade de acumular água e outros compostos gasosos em forma de gelo no espaço. Adicionalmente, são entendidos como um dos mais antigos meteoritos a surgir, se divergindo rapidamente da nébula solar primordial, representando, provavelmente, os primeiros minerais a surgir no sistema solar².
A hipótese de origem endógena é relativamente recente, analisando-se assinaturas químicas do hidrogênio em cometas, meteoros e outros planetas rochosos, como Vênus e Marte, é possível reconhecer que mesmo a Terra tendo uma semelhança maior com condritos carbonáceos, as águas em Marte e Vênus apresentam proporções de deutério distintas das da Terra, de condritos carbonáceos e mesmo de alguns cometas³.
Tais assinaturas apontam para uma origem de água como um processo geológico que pode ocorrer por processos endógenos aos planetas, inclusive a Terra, e que a água em nosso planeta, não necessariamente, seria toda exógena. Em 2025, um time de cientistas demonstrou, experimentalmente, que a interação do óxido de Ferro (FeO) com o hidrogênio, presente em outros gases da atmosfera terrestre, produziria a água (H2O)4 .
O avanço deste processo é fantástico, auxiliando na explicação de parte da origem dos oceanos e águas terrestres, ainda que insuficiente, em quantidade, essa demonstração traz uma complementariedade interessante para as origens do oceano. Tal hipótese é importante, ainda mais sabendo à respeito do “oceano” escondido no manto terrestre.
Ciclo da Água
Em nosso planeta, pelas condições de pressão e temperatura, a água, substância fundamental à vida e que compõe nossos oceanos e mares, encontra-se líquida, a maior parte do tempo. Todavia, este mesmo composto circula por rochas, bacias, corpos de animais e plantas, rios, geleiras de maneiras muitos distintas, seja líquida, vapor ou sólida. Esse constante trânsito, chamamos de ciclo da água.

Apesar de bastante conhecido entre muitos, este ciclo é apenas parcial. Conhecido desde 20065, o ciclo da água profundo é trabalhado e estudado por diversos geólogos e geofísicos que descobriram a inclusão de precursores da água, assim como sua decomposição e recomposição em minerais que se encontram abaixo da crosta terrestre.
Minerais com inclusão de H+ ou (OH–) provavelmente possuem participação química da água, muitas vezes oceânica, por meio do processo de subducção das placas tectônicas em regiões de colisão, como os Andes ou o Japão. Minerais que possuem estes compostos, muitas vezes são denominados de “hidratados”, não por conter água em si, mas por conter precursores da água e que, quando combinados, em condições de pressão e temperatura específicas, formam moléculas de água.

Mais recentemente, em 2014, a descoberta de vastas quantidades do mineral Ringwoodita que concentra quantidades consideráveis de “água” (leia-se OH–), que, segundo cálculos de alguns autores, superaria o volume de águas superficiais6. Desta maneira, descobriu-se que o ciclo profundo da água, que ocorre dentro destes minerais tem um papel fundamental na ciclagem de rochas e da própria água do planeta.

Bem, entendemos as origens da água que forma nossos oceanos, mas, como esses espaços surgem? Como nasce um mar e um oceano, de maneira efetiva? Para isso, precisamos nos voltar à tectônica de placas. E para uma parte 2!
Referências:
- Artigos:
3 DRAKE, Michael J. “Origin of Water in the Terrestrial Planets.” Meteoritics & Planetary Science, vol. 40, no. 4, Apr. 2005, pp. 519–527, https://doi.org/10.1111/j.1945-5100.2005.tb00960.x.
4 Miozzi, F., et al. “Experiments Reveal Extreme Water Generation during Planet Formation.” Nature, 30 Oct. 2025, www.nature.com/articles/s41586-025-09816-z, https://doi.org/10.1038/s41586-025-09816-z. Accessed 3 Nov. 2025.
5 Pearson, D. G., et al. “Hydrous Mantle Transition Zone Indicated by Ringwoodite Included within Diamond.” Nature, vol. 507, no. 7491, 1 Mar. 2014, pp. 221–224, www.nature.com/articles/nature13080#ethics, https://doi.org/10.1038/nature13080. Accessed 23 Dec. 2020.
6 Rüpke, Lars, et al. “Implications of Subduction Rehydration for Earth’s Deep Water Cycle.” Geophysical Monograph Series, 19 Mar. 2013, pp. 263–276, https://doi.org/10.1029/168gm20. Accessed 8 June 2026.
- Livros:
Grotzinger & Jordan. Para Entender a Terra. 8ª Ed.
Teixeira, Fairchild, Motta de Toledo & Taioli. Decifrando a Terra.
Garrison. Fundamentos de Oceanografia. 7ª Ed.