Segundo as teorias mais aceitas, os povos Tupi se originaram na região amazônica, a partir de onde teriam começado a se expandir por volta de 5000 AP (antes do Presente). Eles se disseminaram seguindo dois eixos principais: um (os Guarani) teria seguido através dos rios Madeira e Guaporé, em direção ao sul, dispersando-se pelas margens do rio Paraguai, o outro (Tupinambá) se expandira pelas margens do Rio Amazonas até a sua foz, seguindo pela costa, em um movimento norte-sul. Os Tupinambá chegaram ao litoral nordeste por volta de 500 AD, e os Guarani no sul da América do Sul em 100 AD.
Ao chegarem ao litoral, os Tupinambá encontraram a costa habitada pelos povos construtores dos sambaquis, que eram montes artificiais constituídos sobretudo por conchas e com função eminentemente funerária. O contato entre os grupos ocorreu de forma desfavorável para os sambaquieiros. A chegada dos Tupinambá para o litoral foi um dos fatores que contribuíram para o colapso da sociedade sambaquieira.
Foi nesse contexto que os Tupinambá tiveram seu encontro com o oceano e começaram a incorporá-lo em seus modos de vida. A pesca, tanto em água doce quanto em água salgada, era importante fonte alimentar desses grupos, que desenvolveram diferentes métodos. A pesca à linha, feita com fibras de tucum torcidas à mão com um espinho curvo na ponta ou com anzóis de madeira, era muito difundida na costa. Além disso, eles utilizavam redes de pesca e eram muito hábeis em pescar com flechas.

Outra técnica era o uso de diferentes venenos oriundos de plantas para atordoar os peixes. Além de peixes, os Tupinambá consumiam uma grande quantidade de moluscos e crustáceos. Eles eram ótimos nadadores e podiam capturá-los até mesmo com as mãos. Eram também hábeis navegadores. Algumas canoas eram feitas de troncos enquanto outras eram fabricadas com uma espécie de casca de árvore.
O mar representava para os Tupinambá mais do que apenas fonte de subsistência. As conchas coletadas podiam servir de adorno, como é o caso desse tembetá feito de concha encontrado no sítio arqueológico São José, em Araruama (RJ). Os tembetás eram adornos exclusivamente masculinos usados nos lábios e nas bochechas.


Além disso, o oceano também passou a habitar a cosmogonia e a religiosidade Tupinambá. Segundo sua mitologia, o deus Monan teria destruído o mundo com fogo e apenas um homem teria se salvado: Irin-Magé, conservado por Monan no céu durante o incêndio. Irin-Magé então suplicou por chuva a Monan, que a provocou para extinguir o fogo. As águas do dilúvio teriam dado origem aos rios e mares, sendo a salinidade oceânica causada pelas cinzas diluídas nas águas.
Boa parte dessas informações são provenientes dos relatos de cronistas e missionários europeus que tiveram contato com os Tupinambá no século XVI. Entretanto, muitos dados e registros de ocupação também são fruto de pesquisas arqueológicas, que abarcam períodos mais recuados no tempo e possibilitam análises de longa duração. Um exemplo disso foram as pesquisas realizadas por Angela Buarque na região de Araruama, litoral do estado do Rio de Janeiro, onde foram registrados sete sítios arqueológicos: Morro Grande, Serrano, São José, Jardim Bela Vista, Santos Agostinho e Barba Couto.
Nesses sítios, foi encontrada vasta cultura material pertencente à tradição Tupiguarani, incluindo artefatos líticos, adornos e, sobretudo, recipientes cerâmicos, que são os elementos com maior capacidade de sobreviverem ao tempo. Os artefatos encontrados correspondem a uma grande profundidade temporal que incluem datações desde 2920+70 AP até 430+40 AP, o que abrange também o período do contato com os europeus. Dentre os artefatos cerâmicos, foram encontradas muitas peças utilitárias assim como urnas funerárias, incluindo cerâmicas inteiras e fragmentos, com acabamento alisado, decorações plásticas e algumas ricamente pintadas. A partir da análise desses tipos de achados, é possível compreender diversos aspectos dessas populações que interagiam com o mar e tinham suas vidas interligadas ao oceano.
Desta forma, é possível perceber que o oceano estava intimamente conectado à vida dos Tupinambá, desde sua subsistência, passando pela produção de sua cultura material, até dimensões mais abstratas de suas sociedades.


Referências:
BROCHADO, José Proenza. An Ecological Model of the Spread of Pottery and Agriculture into Eastern South America, Thèse de Doctorat, Urbana-Champaign, University of Illinois, 1984. 574p.
BUARQUE, Angela. Étude de l’occupation Tupinambá dans la région sud-est de l’Etat de Rio de Janeiro, Brésil. Paris, 2009. 446 f. Tese (Doutorado em Arqueologia) – Institut d’Art et Archéologie, Université Paris 1 Panthéon – Sorbonne, Paris, 2009.
MÉTRAUX, Alfred. A religião dos tupinambás e suas relações com a das demais tribos tupi-guaranis [1928]. 2.ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional/ Editora da Universidade de São Paulo, 1979.
MÉTRAUX, Alfred. A civilização material das tribos tupi-guarani. Campo Grande: Gráfica Editora Alvorada, 2012.
RABELO, Luiza V. A cultura material Tupiguarani dos sítios arqueológicos de Araruama (RJ): O que dados arqueológicos “mudos” têm a dizer sobre as sociedades Tupinambá? Rio de Janeiro, 2018. 194 f. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018. STADEN, Hans. Duas viagens ao Brasil [1557]. São Paulo/Belo Horizonte: EDUSP/Itatiaia, 1974.