Arqueologia e Pré-História

Desde 2013 colaborando com a educação e informação ao grande público sobre arqueologia e pré-história em língua portuguesa. Notícias, artigos, eventos, e muito mais! (Este site NÃO possui fins lucrativos).

A história do uso da coca

Texto de Marina Gratão

cocaleaf

O uso da coca era, e ainda é, parte da antiga vida diária nos Andes, um importante símbolo da identidade cultural em cerimônias, e é usada medicinalmente também. Mascar coca é considerado bom para o alívio do cansaço e da fome, benéfico para doenças gastrointestinais, e acredita-se que traga alivio para dor de cárie dentária, artrite, dores de cabeça, feridas, fraturas, hemorragia nasal, asma e impotência.

Os incas consideravam-na como um presente dos deuses, visando melhorar a vida humana; suas folhas são sagradas e o espírito da planta é personificado como Mama Coca, um aspecto divino e benéfico da Natureza. Por volta do século X, quando a civilização Inca estava em seu auge, a coca estava bem estabelecida na Cordilheira dos Andes. Os incas acreditavam que os deuses apresentaram a coca ao povo para satisfazer sua fome, para fornecer-lhes vigor, e para ajudá-los a esquecer suas misérias. Eles veneravam a coca, que estava intimamente envolvida em suas cerimônias religiosas e nos diversos ritos de iniciação – xamãs a usavam para induzir um estado de transe, a fim de comungar com os espíritos.

Inca men chewing coca leaves.

O antigo método de uso da cocaína andina envolve dobrar folhas de coca em um “maço” e colocá-lo entre os dentes e no interior da bochecha. Uma substância alcalina tal como cinzas de madeira em pó ou conchas cozidas em pó é então transferida para o maço utilizando um tubo de prata ou calcário. Este método de consumo foi descrito pela primeira vez aos europeus pelo explorador italiano Américo Vespúcio em 1499, porém evidências arqueológicas mostram que esse método é bem mais antigo que isto. Em um encontro que teve na costa do Caribe onde hoje é a Venezuela, ele descreve:

“Encontramos lá as pessoas mais feias que já tínhamos visto: tão feias de rosto e expressão, e todas elas tinham suas bochechas cheias de uma erva verde que mastigavam constantemente como animais, de modo que mal podiam falar, e cada uma carregando em volta do pescoço duas “cuias”, uma delas cheia da erva que eles tinham em suas bocas e a outra cheia de um pó branco que parecia gesso em pó, e de tempo em tempo, eles mergulhavam um pedaço de pau nesse pó depois de molha-lo na boca, em seguida, colocavam-no na boca, um pouco em cada bochecha, a fim de aplicar o pó na erva que eles mastigavam; eles faziam isso com muita frequência. Ficamos surpresos com isso e não conseguíamos entender o seu segredo ou por que eles faziam isso”.

Bolivian woman chews coca leaves during a protest in La Paz

Mascar mais de 20-60 g de folhas de coca resulta em uma dose de cocaína de 200-300 mg, equivalente a uma “carreira” de cocaína em pó.

História da domesticação

Coca, a fonte da cocaína natural, é uma dentre vários tipos de plantas da família Erythroxylum, que inclui mais de 100 espécies diferentes de árvores, arbustos e sub-arbustos nativos da América do Sul e de outros lugares. Duas das espécies da América do Sul, E. coca e E. novogranatense, possuem alcalóides potentes em suas folhas, que têm sido usadas pelas suas propriedades medicinais e alucinógenas durante milhares de anos.

CocaLeaves (health)

E. coca tem origem na zona montanhosa dos Andes oriental, entre 500 e 2000 metros acima do nível do mar. Provavelmente foi domesticada em primeiro lugar. Se a presença em zonas costeiras da coca originária de altitudes mais elevadas significa que a planta foi domesticada neste momento, ou simplesmente comercializadas, ninguém sabe.

E. novagranatense é conhecida como “coca colombiana” e é mais capaz de se adaptar a diferentes climas e altitudes; aparece no norte do Peru em mais ou menos 2000 a.C.

Os primeiros indícios do uso de coca até o momento é a partir de sítios arqueológicos Pré cerâmicos no Vale do Nancho, Peru. As folhas de coca foram diretamente datadas por AMS de 7.920 e 7.950 cal AP (anos calibrados antes do presente). Artefatos associados ao processamento de coca também foram encontrados em contextos datados tão cedo quanto 9.000-8.300 cal BP.

ALeqM5i-Lrs4nTshWRdNvA4ohBh-qM_oWA

Mais ou menos ao mesmo tempo, o uso de coca está em evidência em cavernas no vale de Ayacucho, Peru, dentro dos níveis datados entre 5.250-2.800 cal BC (anos calibrados antes de Cristo). Os primeiros indícios de utilização foram identificados a partir de depósitos em vasos de cerâmica da cultura Valdivia no litoral do Equador (cerca de 3.000 a.C). Evidências para o uso de coca foram identificadas na maioria das culturas na América do Sul, incluindo Nazca, Moche, Tiwanaku, Chiribaya e culturas incas.

Além da presença de maços, kits de coca, e as representações artísticas de seu uso, os arqueólogos usaram a presença excessiva de depósitos alcalinos nos dentes humanos e abcessos alveolares como prova.

Começando na década de 1990, a cromatografia gasosa foi utilizada para identificar o uso de cocaína em restos humanos mumificados, particularmente na cultura Chirabaya, recuperados do Deserto de Atacama do Peru. A identificação de BZE, um produto metabólico da coca (benzoilecgonina), em fios de cabelo, é considerada ampla evidência do uso de coca, mesmo para usuários modernos.

Fontes:

http://archaeology.about.com/od/cterms/qt/Coca.htm

http://tairona.myzen.co.uk/index.php/culture/the_use_of_coca_in_south_america/

Como mascar coca (em inglês):

http://www.bootsintheoven.com/boots_in_the_oven/2011/05/chewing-coca-a-primer.html

Referências:

Bussmann R, Sharon D, Vandebroek I, Jones A, and Revene Z. 2007. Health for sale: the medicinal plant markets in Trujillo and Chiclayo, Northern Peru. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine 3(1):37.

Cartmell LW, Aufderheide AC, Springfield A, Weems C, and Arriaza B. 1991. The Frequency and Antiquity of Prehistoric Coca-Leaf-Chewing Practices in Northern Chile: Radioimmunoassay of a Cocaine Metabolite in Human-Mummy Hair. Latin American Antiquity 2(3):260-268.

Dillehay TD, Rossen J, Ugent D, Karathanasis A, Vásquez V, and Netherly PJ. 2010. Early Holocene coca chewing in northern PeruAntiquity 84(326):939-953.

Gade DW. 1979. Inca and colonial settlement, coca cultivation and endemic disease in the tropical forest. Journal of Historical Geography 5(3):263-279.

Ogalde JP, Arriaza BT, and Soto EC. 2009. Identification of psychoactive alkaloids in ancient Andean human hair by gas chromatography/mass spectrometry. Journal of Archaeological Science36(2):467-472.

Plowman T. 1981 Amazonian coca. Journal of Ethnopharmacology 3(2-3):195-225.

Springfield AC, Cartmell LW, Aufderheide AC, Buikstra J, and Ho J. 1993. Cocaine and metabolites in the hair of ancient Peruvian coca leaf chewers. Forensic Science International63(1-3):269-275.

Ubelaker DH, and Stothert KE. 2006. Elemental Analysis of Alkalis and Dental Deposits Associated with Coca Chewing in Ecuador. Latin American Antiquity 17(1):77-89.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 14/08/2013 por em Reportagens.
%d blogueiros gostam disto: