Arqueologia e Pré-História

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[Guestpost] Em Busca da Arca de Noé

Texto de Joelza Ester Domingues
historiadora, administradora do site Ensinar História

A história do dilúvio e da Arca de Noé povoa o imaginário ocidental desde muito antes do cristianismo. A história remonta às epopeias de Atrahasis (séc. XVIII a.C.) e de Gilgamesh (séc. X a.C.), da mitologia mesopotâmia.

Faz parte da tradição judaica, mencionada no Gênesis, que glorifica Noé como sendo o primeiro homem digno a receber a graça de Deus e por quem a raça humana continuou. Segundo a literatura rabínica, a arca foi saqueada ainda na Antiguidade e seus restos foram usados para erguer altares para adoração de ídolos, conforme é relatado no Talmud Tratado Sanhedrin e no Midrash Yalkut Shimoni.

O historiador judaico-romano Flávio Josefo (c.37-c.95), menciona a arca e testemunhos de pessoas que subiam as montanhas na região, então conhecida como Armênia, para tirar o betume da arca, considerado de qualidade superior. Faz, também, citações de escritores antigos como Hieronymus, o egípcio e Nicolau de Damasco a respeito da existência de uma arca de madeira encravada nas rochas.

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Representações da Arca de Noé

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Arca de Noé, do historiador persa Hafiz Abru, século XV.

O cristianismo e o islamismo incorporaram a tradição do dilúvio e da arca. Noé é um dos cinco principais profetas do Islã e as referências a ele estão espalhadas no Alcorão. A surata 11, intitulada “Hud”, que relata o episódio do dilúvio, diz, em 11:44, que a arca foi parar no monte Al Judy, montanha próxima de Mossul, no norte do Iraque.

Inicialmente, os cristãos também apontavam o monte Judi como local de pouso da arca mas a tradição acabou sendo substituída pela montanha mais alta da região, o monte Ararat.

 Na Idade Média, o viajante veneziano Marco Polo (1254-1324) mencionou a arca de Noé em seu livro As viagens, apontando sua localização na montanha mais alta da Armênia Maior.

O corsário e explorador inglês Walter Raleigh (1552-1618), durante o tempo que ficou preso na Torre de Londres ocupou-se de investigar a localização da arca. Em sua História do Mundo (1616) descreveu as montanhas de Ararat onde a arca teria pousado.

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Construção da Arca de Noé. Nuremberg Chronicle, 1493.

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Arca de Noé, de Simon Myle, 1570.

Cresce a mitologização da Arca

Em 1829, o alemão naturalista Friedrich Parrot, escalou o monte Ararat e não encontrou nenhum sinal da Arca. Contudo, recolheu relatos de moradores locais e de monges armênios que afirmavam ter certeza de que a Arca de Noé permanecia no topo do monte protegida por anjos que não deixavam ninguém chegar até ela. Os mosteiros de São James e de Echmiadzin, ao pé da montanha diziam possuir um pedaço da Arca que receberam do anjo guardião. Tais relíquias, se existiram, desapareceram em 1840 quando os mosteiros foram destruídos pela erupção do Ararat.

Em 1876, James Bryce, historiador e professor de Direito Civil na Universidade de Oxford, escalou o monte Ararat e encontrou um pedaço de madeira talhada a mão, de 1,2 m de comprimento e 12 cm de largura, que ele disse ser um fragmento da Arca. Deixou o objeto aos cuidados da Igreja Armênia dizendo que cabia a ela comprovar sua veracidade.

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Arca de Noé, de Edward Hicks, 1846

Em 1943, o sargento norte-americano Ed Davis, quando servia em Hamadã, no Irã, foi convencido de que a Arca estava visível graças ao derretimento do gelo do Ararat. Junto com um guia, aventurou-se a ir ao monte. Depois de três dias de subida íngreme, seu guia lhe indicou, encravada na montanha, a Arca partida em pedaços. Em uma entrevista, ele relatou:

“Mas eu não consegui ver nada. Tudo tinha a mesma cor e textura. (…) Então, eu vi isso – uma enorme estrutura retangular, feita pelo homem parcialmente coberta por uma camada de gelo e rocha, deitada de lado. Pude até ver dentro dela e onde foi quebrada, com madeira torcida e retorcida para fora (…). Abas [o guia] apontou para baixo da garganta e eu vi uma outra parte dela. E pude imaginar como as duas peças estiveram unidas um dia.” (DAVIS, 1985-1986).

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Pintura de Elfred Lee, feita com base nos relatos e descrição de Ed Davis.

O relato de Ed Davis, contudo, apresentava vários pontos refutáveis. Em primeiro lugar, ele afirmou que de Hamadã, onde estava aquartelado, podia ver o Ararat, e que chegou ao pé da montanha em meio dia de viagem – façanha impossível considerando a distância (cerca de 650 km) e a precariedade do caminho. Nas entrevistas que deu, entrou em contradição e corrigiu sua história muitas vezes.

Anos depois, o piloto de helicóptero George Green afirmou ter visto a Arca quando sobrevoou o Ararat em 1953. Bateu muitas fotos e marcou sua localização. Tentou formar uma expedição para voltar ao local, mas não conseguiu dinheiro suficiente. Suas fotos desapareceram na Guiana Inglesa, quando ele foi assassinado em 1962.

Em agosto de 1982, foi a vez do ex-astronauta coronel James Irwin procurar pela Arca. Juntou-se a Eryl Cummings que, desde a década de 1930, pesquisava sobre a Arca e já havia subido o Ararat. Foram sete expedições ao Ararat sem nenhuma evidência concreta da Arca. “Eu fiz tudo o que pude”, disse Irwin, “mas a Arca continua a nos iludir”.

As expedições evangélicas em busca da Arca

No século XX, cresceram as pesquisas sobre a Arca, especialmente nos círculos evangélicos conservadores dos Estados Unidos. A convicção generalizada de que a Arca de Noé está encravada no alto dos picos gelados do Ararat esperando para ser encontrada ganhou contornos pseudocientíficos misturando fé fervorosa com atração pela aventura. Os resultados dessa “arca-ologia” são repletos de depoimentos de testemunhas obscuras, evidências questionáveis, fotografias sem nitidez, desenhos baseados em fotografias cujos originais se perderam e até rumores de conspiração ateísta.

As expedições pseudoarqueológicas em busca da Arca tornaram-se o equivalente evangélico da caça de relíquias de santos na Idade Média ou da procura do monstro do Lago Ness. Neste sentido, é ilustrativa a declaração do piloto Richard Carl Bright, autor de Quest for Discovery ao narrar suas aventuras em busca da Arca:

“Eu acredito firmemente que os governos da Turquia, Rússia e Estados Unidos sabem exatamente onde a arca se encontra. Eles escondem a informação, mas (…) Deus está no comando. A estrutura será revelada em seu tempo. Subimos a montanha em sua busca, esperando que ela se mostre. Use-nos, ó Senhor, é a nossa oração.”

Documentários para a televisão, artigos em jornais, revistas e websites também exploram o tema apresentando evidências supostamente científicas. Um dos exemplos mais populares é o vídeo para televisão In Search of Noah’s Ark, dirigido por James L. Conway. Apresentado em 1976, ele chega a ser convincente para os leigos e muitos acreditam que a Arca de Noé foi definitivamente encontrada. Expedições posteriores provaram que o objeto era simplesmente uma grande formação rochosa.

Veja o vídeo In Search of Noah’s Ark, de 1976:

 

A expedição do adventista Ron Wyatt

 Entre 1980 e 1990, o explorador Ron Wyatt defendeu com veemência que a Arca não estava no Ararat mas a 29 km ao sul, em Durupınar (a leste da Turquia, próximo à fronteira iraniana). Viajou para lá com uma equipe de estudiosos. O local foi fotografado e mapeado.

Wyatt mostrou ao mundo as evidências que encontrou no local: âncoras de pedra com oito cruzes que representavam a família de Noé, amostras de madeira petrificada e até partes conservadas de animais (pelos petrificados e fragmentos de chifres). Detectores de metal encontraram objetos metálicos e permitiram desenhar o perfil da arca.

Os argumentos de Ron Wyatt, contudo, não foram aceitos pelos cientistas, historiadores, estudiosos da Bíblia e até por líderes de sua própria Igreja Adventista do Sétimo Dia. Seus colegas de equipe deixaram a pesquisa e as “evidências” anunciadas por Wyatt não foram comprovadas. Geólogos identificaram o local como uma formação natural.

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Foto da “arca de Ron Wyatt”. Pesqusias mais detalhadas revelaram, contudo, que se trata de um afloramento de rochas de basalto.

 

A expedição do empresário do Havaí

Em 2004, Daniel McGivern, empresário de Honolulu, Havaí, investiu centenas de milhares de dólares para uma expedição ao maior pico do Ararat. Contratou a DigitalGlobe para tirar fotos de satélite do monte. Depois de muito alarde inicial, as autoridades turcas negaram-lhe autorização pois o local está em uma zona militar restrita.

A expedição foi posteriormente denunciada pela National Geographic News como sendo uma farsa e que seu líder, o acadêmico turco Ahmet Ali Arslan, havia falsificado fotografias da Arca.

A expedição do Instituto Base

Em junho de 2006, o americano Bob Cornuke, fundador da Bible Archeology Search and Exploration Institute (BASE) levou uma equipe de 14 americanos – empresários, advogados e líderes evangélicos – ao Irã para visitar um sítio nas montanhas Alborz dizendo ser o possível local onde estaria a Arca.

A equipe afirmou ter avistado um “objeto” 13.000 pés (quase 4.000 metros) acima do nível do mar, que tinha a aparência de vigas de madeira petrificadas enegrecidas, do tamanho de “um pequeno porta-aviões” (cerca de 120 m), dimensão coerente com as indicadas no Gênesis de 300 côvados por 50 côvados (o côvado era uma medida linear de cerca de 45 cm).

Foram encontrados, também, animais marinhos fossilizados dentro da madeira petrificada, e nas imediações do local. Anunciaram que “um laboratório” de Houston, credenciado pelo Smithsonian Institute, confirmara tratar-se de madeira petrificada contendo animais marinhos fossilizados.

O nome do laboratório que realizou a pesquisa nunca foi revelado. Nenhuma fotografia da suposta Arca foi disponibilizada, apenas alguns curtos segmentos de vídeo. Não há consenso entre os membros da equipe sobre o objeto encontrado. Reg Lyle, membro da expedição, descreveu a descoberta como sendo “um dique de basalto”.

Veja o vídeo In search of Noah’s Ark, do Instituto Base

Expedição turco-chinesa

Em 2007, uma expedição de pesquisadores evangélicos turcos e chineses de Hong Kong, incluindo membros da Noah’s Ark Ministries International (NAMI) afirmou ter encontrado, no monte Ararat, uma caverna incomum com paredes de madeira fossilizada, bem acima da linha de vegetação. Em 2010, o NAMI lançou vídeos de sua descoberta das estruturas de madeira. Segundo este instituto, a datação por carbono indicou que a madeira tem cerca de 4.800 anos

Veja o vídeo da Noah’s Ark Ministries International

Randall Price, sócio da NAMI, afirmou que a descoberta foi provavelmente o resultado de um embuste, cometido por dez trabalhadores curdos contratados pelo guia turco que teriam fixado grandes vigas de madeira retiradas de uma estrutura velha, perto do Mar Negro. A NANI se defende dizendo que seria impossível transportar, secretamente, tal quantidade de madeira e ainda fixá-la a 4.000 metros de altitude.

Em abril de 2010, o ministro da Cultura da Turquia, ordenou uma investigação para saber como a NAMI levou peças de amostras de madeira da Turquia para a China. O mistério aumentou quando um explorador escocês que investigava a ação da NAMI foi dado por desaparecido em 14 de outubro de 2010.

Uma arca contemporânea

A Arca de Noé permanece um mistério que fascina muita gente. Enquanto ele não é desvendado, uma arca real, em tamanho natural, foi construída na Holanda.

Seguindo as medidas especificadas na Bíblia, o holandês Johan Huibers construiu uma réplica da Arca de Noé. O trabalho levou três anos para ser concluído e custou mais de um milhão de dólares. Inaugurado em 2012, o enorme barco de madeira em Dordrecht, Holanda, tem um restaurante e salas de cinema. Recebe milhares de turistas por dia que passeiam pelos ambientes em meio a esculturas de animais em tamanho natural.

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Arca de Noé, em Dordretch, Holanda.

Sobre o dilúvio, veja também esse artigo Dilúvios mitológicos que esta associado a busca arqueológica da Arca de Noé.

Fonte

 

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Um comentário em “[Guestpost] Em Busca da Arca de Noé

  1. Pingback: Dilúvios mitológicos

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Informação

Publicado em 21/12/2015 por em Reportagens.

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