Arqueologia e Pré-História

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A vida secreta de um(a) arqueólogo(a): terra no sanduiche e sexismo nos sítios

Autoria anônima

Tradução: Gabriela Sartori Mingatos

A arqueologia é um trabalho difícil. Você precisa de paciência para lidar com a burocracia, dedicação ao registro minucioso dos achados em escavações – e um toque de excentricidade sempre ajuda.

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Um gosto por chapéus de Indiana Jones e outros acessórios estranhos vão te ajudar a se encaixar. Ilustração: Michael Drive

Eu concluí que a arqueologia é o resultado de uma noção romântica de longa data relacionada a grandes descobertas e solução de mistérios. Quando criança, eu sempre estava imerso em livros, perdido em reinos de civilizações grandes e antigas ao redor do mundo. Eu nunca tive expectativas fantásticas sobre arqueologia, eu acho. Eu nunca pensei que poderia viajar o mundo e ser um caçador de tesouros; E você certamente não conseguiria viajar na arqueologia ao menos que você seja alguém influente, tenha poderes mágicos para financiamentos, ou conhecesse as pessoas certas nos lugares certos.

Nada do que foi dito se aplica a mim, então eu tenho me limitado a arqueologia na Inglaterra e norte da Irlanda. Não me entenda mal, arqueologia é infinitamente fascinante mas sejamos honestos, não é nada imponente como se diz, das pirâmides ou Pompéia. Aqui, o mais bacana pode ser dois diferentes solos coloridos, lado a lado, mas para um olho treinado isso nos dá uma boa noção sobre o que estava acontecendo milhares de anos atrás.

Você precisa ser um pouco excêntrico para ser arqueólogo. Um gosto por chapéus de Indiana Jones e outros acessórios estranhos lhe ajudarão a se encaixar. Quando você ver um amigo babando em uma lasca, ou outro pular de alegria com um pedaço de argila cozida – o único pedaço de cerâmica que apareceu no sedimento – você começa a entender do que se trata a arqueologia. Mas se o que você procura é ouro, segurança no trabalho, ou bom pagamento, você provavelmente deve procurar outra área, pois existe uma falha nos itens acima. Você não se torna um arqueólogo para ficar rico. Você faz isso por ser apaixonado pelo o que ainda não foi descoberto, as falhas nos livros de história.

Acima de tudo, o trabalho requer paciência e dedicação, por que ver um sítio arqueológico do principio ao fim é um longo e lento processo – as vezes leva décadas para completar. Primeiro você deve passar por toda a burocracia e papelada pré-escavação, garantindo financiamento, aprovação, uma licença para começar. Então, você tem o trabalho pré-escavação; levantamentos geofísicos e topográficos, pesquisas sobre a área, avaliações de segurança e outros preparativos. A seguir vem o laborioso trabalho físico (braçal) de escavar o sítio.

Nós usamos ferramentas parecidas como as  dos trabalhadores de estrada. Enxadas, pás e os carrinhos de mão e as colheres de pedreiro são nossos companheiros. Se as suas costas nunca experimentaram nenhum desgaste, isso certamente poderá acontecer depois de escavar com uma colher de pedreiro ou uma pá. Existe uma estranha felicidade em bater num rochedo ou num monte com uma colher de pedreiro: aquele raio de dor que dispara em seus braços e em seu crânio.

Isso lhe dá um braço torneado, se você gosta desse tipo de coisa. Não há duvidas de que o trabalho físico pode fortalecer seu corpo, mas na arqueologia, onde ações repetitivas, dia a pós dia, com frio e umidade nos seus membros, isso pode ter um efeito reversos também. Eu ainda tenho que conhecer um arqueólogo que não sofra de um problema de saúde físico. Geralmente são os joelhos, ombros e costas que são os primeiros a ir. Se você começar jovem, no momento em que você estiver em seus 40 anos, você esperançosamente terá estagiários mais novos para delegar todo o trabalho duro já que estará demasiado decrépito para fazê-lo você mesmo.

O clima é um ditador cruel, determinando se sua vida vai ser agradável e fácil ou realmente, realmente resistente. Todos nós sabemos como é o clima no Reino Unido e os arqueólogos não simplesmente embalam e hibernam durante os meses de inverno. Dependendo de com quem você trabalha e do quão remoto seu local é, não há nenhuma garantia de abrigo. Pressão sobre o financiamento e os limites de tempo muitas vezes significam que você tem que continuar, não importa o quê, até que o trabalho seja feito.

O registro é possivelmente o aspecto mais importante do trabalho de campo. Depois de terminar e deixar um sitio não há como voltar para verificar alguns detalhes que você pode ter perdido ou tomar algumas medidas extra aqui e ali. Assim os registros do local transformam-se numa fonte de grande ansiedade e também sua possessão mais preciosa quando você está em campo. Você invariavelmente acaba transportando eles como um bebê e leva eles para casa à noite, compartilhando uma garrafa de vinho com eles (ao contrário de um bebê).

Uma coisa que eu nunca esperei quando comecei nesta profissão é que ser mulher seria um problema. Alguns dias você vai trabalhar temendo comentários que você sabe que você vai receber quando você chegar lá, endurecendo preventivamente suas defesas. É lamentável, mas acontece, principalmente em locais de construção onde você pode ser a única arqueóloga, e do sexo feminino, trabalhando ao lado e coordenando os trabalhadores da construção civil, arquitetos, motoristas e escavadores. Individualmente, sempre foram maravilhosos e respeitosos cavalheiros. Mas, infelizmente, quando se juntam em três ou mais é bizarro e se transformam em misóginos. Padronizar comentários como “olha,  uma mulher trabalhando, tira uma foto” e “você não pode trabalhar aqui, você está com as unhas feitas” são difíceis de ignorar. Mas você tem que ficar calma e profissional, enquanto trabalha duas vezes mais duro para ganhar o seu respeito do que se você fosse um homem.

Igualmente, detectores de metais podem ser um pesadelo em uma escavação. Aqueles que atuam como caçadores de tesouros, operando sem licença, cavando sob a capa da noite, não são susceptíveis de manter registros detalhados. Uma vez que um objeto é removido de um sítio, ele perde seu contexto e seu valor informativo é reduzido para quase zero, dependendo do artefato. Quando alguém caminha num local sem ser convidado com um saco dos artefatos seu coração apenas afunda e você tem que morder sua língua.

Diferenças de lado, eu amo a camaradagem de escavações. Trabalhar juntos ajuda a manter a moral, especialmente naqueles dias realmente difíceis, quando tem terra em seus sanduíches, parece que choveu dentro da sua capa impermeável e você sabe que você só tem algumas horas para salvar o máximo que puder antes de alguém vir e destruir o sitio, apagando-o permanentemente.

Infelizmente, temos de aceitar que isso vai acontecer. Como seres humanos vamos continuar a construir e substituir. Mas pelo menos através da arqueologia algum registro do que uma vez foi, permanece. E eu gosto de pensar que algum outro garoto no futuro poderá se perder nos registros de nossa civilização, e imaginar.

Texto original: The secret life of an archaeologist: soil in your sandwiches and sexism on sites

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2 comentários em “A vida secreta de um(a) arqueólogo(a): terra no sanduiche e sexismo nos sítios

  1. Muito bom esse texto!

  2. fabiana
    06/03/2017

    Realmente é fascinante, admiro este trabalho em que vc tem que descobrir algo relacionado ao passado a história, um desafio. Lembro bem quando me interessei por Arqueologia, trabalhava em um museu e tive a oportunidade de conhecer um grupo que iriam trabalhar em um Ford, n sei bem se esse é o nome,estavan envolvidos em uma descoberta, um projeto de escavação, mas foi algo que me interessou muito e de cara fiquei apaixonada por tudo que envolve esse assunto, Espero um dia poder conhecer esse trabalho de perto.

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Informação

Publicado em 02/03/2017 por em Reportagens.

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