Arqueologia Histórica e a Arquitetura Paulista no século XVI, XVII e XVIII

Por Gabriela Mingatos

Sabemos que a Arqueologia é um campo interdisciplinar, que pode ser dividida (mesmo que essa divisão seja constantemente questionada e discutida) em: arqueologia Pré histórica, arqueologia Clássica e arqueologia Histórica.

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Escavação arqueológica pelo Dr. Astolfo Araujo (MAE-USP) na Casa do Bandeirante, Butantã, São Paulo, em 2013. Estudantes de arqueologia da USP, UFS e UFPI participaram da escavação. Fonte: Arquivos do site Arqueologia e Pré-História.

Compreender as formas de ocupar um espaço pretéritas e entender as soluções encontradas pela humanidade ao longo do tempo para se proteger e construir um limite entre o público e o privado faz parte dos estudos arqueológicos e históricos. Esses estudos nos auxiliam a entender aspetos sociais e simbólicos das relações humanas que ficaram materializados para posteridade.

Dentro da arqueologia histórica, que trata especificamente do período pós contato com europeus, temos uma área de estudos que remonta as primeiras políticas de preservação do patrimônio paulista.

No período de fundação do SPHAN na primeira metade do século XX, sua composição administrativa era majoritariamente de arquitetos, portanto, era de ser esperar que num primeiro momento, os registros materiais da história paulista fossem as edificações.

A partir daí, foram selecionadas edificações que representassem a história paulista. Haja vista que metade da cidade já sofria a influência do classicismo europeu (que será tratado em outro texto), esse não foi considerado o estilo de arquitetura genuinamente paulista, logo, foi excluído.

As casas bandeiristas, por apresentarem uma solução construtiva única com influencias tanto indígenas quanto africanas, foram consideradas como as verdadeiras casas paulistas. Tratam-se de construções comuns no século XVI até XVIII. Na sua maioria são casas simples com um telhado composto por duas águas de telhados (inclinações da cobertura), comuns ao século XVII ou quatro águas de telhado, comuns no século XVIII.

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Planta da casa do Bandeirante no Butantã com o telhado de quatro águas. Fonte: DPH e Mayumi (2008)

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Sítio Santa Luzia em São Paulo, com o telhado de duas águas. Fonte: IPHAN, Mayumi (2008)

Como na cidade de São Paulo não se encontravam rochas apropriadas para as construções tipicamente portuguesas, e como era conhecida como um imenso lamaçal, a solução encontrada foi o uso da taipa (terra socada).

As paredes dessas construções eram feitas de taipa de pilão, com a ajuda de um taipal, que ajudava na compactação da taipa (e as vezes deixavam as paredes tortas), e as paredes internas eram feitas com gaiolas (pedaços de madeira cruzados) preenchidas por taipa aplicada com as mãos (que deixavam as paredes irregulares).

A organização dessas construções eram: os quartos, a sala de jantar, a capela (as vezes localizada na parte externa da casa), alcovas (em alguns casos) e dois quartos reservados na parte de trás ou da frente da casa. Esses quartos eram reservados a visitas que vinham de longe e não tinham ligação com os cômodos internos da casa.

Esse mecanismo era útil à época e ao sistema de patriarcado, para preservar a intimidade da família e principalmente manter estranhos longe das mulheres da casa.

Nesse período é muito clara a separação entre o público e o privado e esse tipo de divisão permanecerá até meados do século XX. O espaço reservado as mulheres na propriedade também eram bem marcados; os alpendres ajudavam a ventilar a casa e permitiam que as mulheres tivessem livre circulação, é claro, longe de olhos estranhos a família. Os alpendres também eram o prolongamento do telhado que cobria os muros de taipa que erodiam com as chuvas.

A arquitetura da casa era feita de modo que apesar de haver um cômodo central, permitisse a circulação velada de empregados e mulheres ao longo do dia, um quarto reservado para o Padre e uma capela na propriedade, quando não, dentro da casa, era necessário devido as longas distancias entre as propriedades e dessas para os grandes centros comerciais ou a igreja principal.

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Organização dos cômodos nas casas bandeiristas. Essa organização pode ser observada na Casa do Bandeirante no Butantã. Fonte: IFCH UNICAMP

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Casa do Bandeirante do Butantã, antes da restauração.
Fonte: Autor desconhecido.

A cozinha, até o século XIX, se localizava na parte externa da casa alguns autores dizem que se trata de uma herança indígena, assim como a própria construção e a presença de palha ao invés de telhas de barro nos telhados das construções.

O mobiliário dessas casas normalmente era simples e pouco, alguns utensílios básicos para a cozinha, cadeiras e moveis de madeira. A influência europeia ficou mais forte apenas com o sucesso do café, portanto, moveis mais refinados só serão comuns a partir do século XIX.

Pensando nas potencialidades informativas das edificações, elas em si já são um registro, entender suas composições e soluções arquitetônicas, as divisões e funções dos cômodos, nos fornece informações sobre a vida cotidiana, as relações e divisões sociais nos séculos passados.

No final de 2013 para 2014, uma escavação coordenada pelo Arqueólogo Astolfo Araujo, foi iniciada na parte externa da Casa do Bandeirante no Butantã e a escavação contou com a ajuda de diversos estudantes de arqueologia da USP. A abertura das quadras para a escavação se concentrou próximo a parte de trás da casa, ao logo da campanha foram encontrados inúmeros fragmentos de cerâmica indígena e alguns poucos (e mal conservados) ossos de animais.

Num primeiro momento, é possível pensar que que por se tratar da parte externa da casa, estivéssemos escavando a área da cozinha. Contudo, como a casa e o terreno passaram por processos de restauro e urbanização, encontrar fragmentos de cerâmicas a menos de 10 cm da superfície exige uma interpretação cuidadosa.

Para saber (muito) mais:

  • LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. CASA PAULISTA: HISTÓRIA DAS MORADIAS ANTERIORES AO ECLETISMO TRAZIDO PELO CAFÉ. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1999.
  • LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. NOTAS SOBRE A ARQUITETURA TRADICIONAL PAULISTA. São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 1969.
  • MAYUMI, Lia. TAIPA, CANELA PRETA E CONCRETO: ESTUDO SOBRE O RESTAURO DE CASAS BANDEIRISTAS. São Paulo, Romano Guerra Editora, 2008.
  • REIS Filho, Nestor Goulart. QUADRO DA ARQUITETURA NO BRASIL. São Paulo, Perspectiva, 1970.
  • REIS Filho, Nestor Goulart. IMAGENS DE VILAS E CIDADES DO BRASIL COLONIAL. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 2000.
  • REIS Filho, Nestor Goulart. SÃO PAULO: VILA, CIDADE, METRÓPOLE. São Paulo, Prefeitura Municipal, 2004
  • SAIA, Luís. A CASA BANDEIRISTA: UMA INTERPRETAÇÃO. São Paulo, Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1955.
  • SAIA, Luís. MORADA PAULISTA. São Paulo, Perspectiva, 1972.
  • ZANETTINI, Paulo Eduardo. MALOQUEIRO E SEUS PALÁCIOS DE BARRO: O COTIDIANO DOMÉSTICO NA CASA BENDEIRISTA, Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo – MAE USP, 2006 (tese de Doutorado).

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