Brasileiros e italianos fazem descobertas na Jordânia que mudam a história evolutiva dos humanos

Pesquisa liderada por uma missão de brasileiros e italianos descobriu ferramentas de pedra lascada datadas de 2.4 milhões de anos na Jordânia. Essas são as mais antigas ferramentas encontradas fora da África e mudam totalmente a história do gênero Homo. Até agora, a ideia era de que os primeiros representantes de nosso gênero teriam saído da África há 1.9 milhão de anos, tendo chegado ao Cáucaso há cerca de 1.8 milhão de anos, conforme demonstra a jazida paleoantropológica de Dmanisi, na República da Geórgia.

Alguns dos pesquisadores envolvidos em etapa de campo em 2015. Foto: LEVOC-MAE-USP

As novas descobertas indicam a presença de hominínios na Jordânia há pelo menos 500 mil anos antes do que se imaginava ter ocorrido a primeira saída da África. As evidências estão relacionadas a ferramentes de pedra lascada encontradas em pacotes sedimentares bem datados de 2,5 milhões de anos.

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Algumas das muitas ferramentas de pedra lascada encontradas no Vale do Zarqa, na Jordânia, datados em até 2,5 milhões de anos. Imagem de Scardia et al 2019.

Quatro dos seis pesquisadores responsáveis pelo trabalho apresentaram detalhes da descoberta e suas implicações em coletiva à imprensa no dia 4 de julho no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Estes pesquisadores são brasileiros e italianos que atuam em universidade brasileiras, sendo o Dr. Walter Neves (Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, Instituto de Biociências da USP/ Instituto de Estudos Avançados da USP); Dr. Fabio Parenti (Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da UFPR), Dr. Astolfo Araujo (Museu de Arqueologia e Etnologia da USP) e Dr. Giancarlos Scardia (Instituto de Geociências da UNESP).

Dr. Walter Neves durante coletiva de imprensa no IEA-USP. Ao fundo, Dr. Astolfo Araujo e Dr. Fabio Parenti. Foto fornecida por Gabriela Mingatos.

Devido ao fato de nenhum fóssil ter sido encontrado  associado aos artefatos, não é possível inferir qual hominínio poderia te-los produzido. Os únicos fósseis hominínios desta idade foram encontradas na África, sendo o Homo habilis, o Homo rudolfensis, e algumas espécies de Australopitecus. Para os pesquisadores, algum dos primeiros Homo a surgirem na África teriam sido os responsáveis pelos artefatos encontrados na Jordânia.

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Os pesquisadores Dr. Walter Neves e Ms. Gabriela Mingatos, durante coletiva de imprensa no IEA, no dia 4 de Abril, em uma explicação sobre os hominínios encontrados entre o norte da África e a Geórgia entre 2,5 e 1,8 milhões de anos. Foto fornecida por Gabriela Mingatos.

A zooarqueóloga Gabriela Mingatos, que participou das escavações em 2014, comentou sobre a importância da recente descoberta: “Estas descobertas inserem o Brasil dentro das principais pesquisas sobre evolução humana e questionam modelos estabelecidos anteriormente sobre a dispersão dos hominíneos fora da África“. Ainda comentou sobre sua participação nas escavações em 2014, e com achou diferente dos trabalhos que costuma realizar em sítios paleoíndios no Brasil: “A escavação foi realizada de maneira vertical, pois havia uma formação de caliche [concreções de carbonato] intransponível no topo do sítio. Havia alguns morros com cortes realizados por escavadeiras, e foi nas ‘paredes’ destes cortes que os artefatos foram encontrados. Então invés de começarmos a escavação pelo topo, fizemos a escavação pela lateral. Os artefatos de pedra lascada apareciam aos montes na escavação, e até alguns fragmentos de mamute, cavalo e boi pré-históricos foram encontrados“. Mingatos é doutoranda no Museu Nacional (UFRJ) e pesquisadora colaboradora no Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (IB-USP).

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Estratigrafia das escavações em 2014, onde a arqueóloga Gabriela Mingatos (à direita na foto) participou. Imagem de Scardia et al 2019.

Astolfo Araujo (MAE-USP), um dos pesquisadores envolvidos, comentou sobre a complexidade de interpretação do registro geológico e arqueológico que culminaram numa idade tão antiga: “Os depósitos com que trabalhamos no em Zarqa não são muito mais complexos do que o que um geólogo ou arqueólogo encontra normalmente em sua profissão. Eles têm apenas que ser entendidos. Uma vez que isso aconteça, a complexidade pode ser “domada”, por assim dizer. As idades em si se relacionam a depósitos muito mais “simples”, por assim dizer: derrames de lava basáltica na base e formação de concreções de carbonato no topo, que deram uma idade máxima e mínima para os depósitos. Então creio que a questão das idades não seja um problema ou, pelo menos, posso dizer que manuscrito foi esmiuçado por tantos pareceristas que creio ter passado no teste“.

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Dr. Astolfo Araujo durante prospecção arqueológica no Vale do Zarqa, Jordânia, em 2014. Foto de Mercedes Okumura.

Araujo ainda complementou sobre a possibilidade dos artefatos estarem fora de contexto e serem produtos de lascamento natural e depósito de um antigo rio que passava no local: “O que realmente me deixou impressionado foi a questão da integridade dos sítios. Quando chegamos lá, nosso modelo para explicar a situação geológica era herdado pelas equipes que trabalharam antes: se todo aquele material arqueológico estava no meio do cascalho, e se todo aquele cascalho foi erodido a partir das colinas que ladeavam o rio, então a conclusão lógica era de que nada daquilo representava comportamento dos hominínios; era apenas um grande deposito sedimentar com artefatos incidentalmente trazidos pela água e pela gravidade. Na medida em que fomos entendendo os depósitos, ficou claro que grande parte desses artefatos foi lascada ali mesmo. Há artefatos transportados, com certeza, mas há muitos artefatos que mostram um grau de preservação e uma concentração em um mesmo local tão grande, que só podem ter sido lascados ali. Para coroar, em um dos sítios encontramos duas metades de uma mesma lasca, que estavam a 20 cm de distancia. Não tem como isso ser produto de ação fluvial e gravidade, essas lascas fazem parte de um mesmo evento de lascamento. Creio que essa é uma das conclusões mais interessantes de nosso trabalho: mais do que jazidas paleontológicas com artefatos misturados, trata-se de sítios arqueológicos onde o comportamento hominínio pode ser observado: eles estavam provavelmente lascando nas barras cascalhentas e nas praias de um antigo rio“.

O artigo sobre a descoberta foi publicado esta semana no periódico científico internacional Quaternary Science Reviews.

Link para o artigo original: SCARDIA et al. 2019. Chronologic constraints on hominin dispersal outside Africa since 2.48Ma from the Zarqa Valley, Jordan. Quaternary Science reviews, 219. DOI: 10.1016/j.quascirev.2019.06.007

PARA SABER MAIS: Quem são os ancestrais dos seres humanos atuais? Um pequeno catálogo

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