Reconstruindo espécies extintas – é só especulação?

Por João Lucas

Oxalaia quilombensis é uma espécie de dinossauro terópode que habitou o que hoje chamamos de Ilha do Cajual, Maranhão, entre 100 e 94 milhões de anos atrás (Cenomaniano, Cretáceo Superior). Oxalaia era o que chamamos de maneira geral de espinossauro (nome dado os membros da família Spinosauridae) e está reconstruído abaixo (fig. 1).

Figura 1. Oxalaia quilombensis, reconstrução baseada em parentes próximos (ver texto). By PaleoGeekSquared – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=89978524.

Dada a detalhada reconstrução, alguns questionamentos emergem: como a paleontologia pode saber que os indivíduos dessa espécie eram assim? Encontraram um fóssil com esqueleto basicamente completo e bem preservado? Bom, abaixo (fig. 2) você pode ver o material com base no qual pesquisadores e pesquisadoras nomearam a espécie. Agora você deve estar se perguntando como é possível reconstruir tanto com base em tão pouco. Paleontologia é pura imaginação? Não, não é.


Figura 2. Holótipo de Oxalaia quilombensis em vistas lateral esquerda (A) e direita (B), dorsal (C) e ventral levemente oblíqua (D). By Marcos A. F. Sales, Cesar L. Schultz – http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0187070, CC BY 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=63906504.

Analisando cuidadosamente a anatomia do material coletado na Ilha do Cajual, conclui-se que se trata das pré-maxilas (fig. 3) fusionadas. Em bom português, isso significa que é a ponta do focinho do bicho, vamos dizer assim. Em vista ventral (fig. 2D) ou dorsal (fig. 2C), é possível ver que esse focinho tinha uma expansão quase circular, que chamamos tecnicamente de roseta. Essa é uma característica dos espinossauros.


Figura 3. Silhueta da cabeça de um Oxalaia com pré-malias em destaque. Modificada a partir de Marcos A. F. Sales, Cesar L. Schultz – Jaw fragment on far right of the skull drawn by: User:PaleoGeekSquared based on Kellner et al. (2011)[2] – http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0187070, CC BY 2.5, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=63906542.

Em vista ventral (fig. 2D) é possível observar que há 7 pares de alvéolos, que são os encaixes para os dentes. Embora não haja dentes completos preservados, há alguns fragmentos, e se pode observar que não eram dentes comprimidos lateralmente como os de outros dinossauros terópodes. Além disso, nota-se que a seção transversal desses dentes era oval ou subcircular. Os espinossauros tem justamente dentes cônicos com seção transversal subcircular (fig. 4).


Figura 4. Dente de um espinossauro encontrado no Marrocos. By Ghedoghedo – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=34870486.

Assim, rapidamente podemos concluir com segurança que esse fóssil é de um espinossauro, um membro da família Spinosauridae.

Certo, até aí tudo bem. Mas como saímos desse pedaço para um bicho completo? Como se faz essa reconstrução? Ora, se pergunte: de maneira geral, como os espinossauros são? Como você já deve aprendido, cada grupo de seres vivos é formado por parentes próximos que são geralmente bastante similares entre si. E isso não é diferente com os espinossauros (fig. 5). Então, basta que a gente tenha alguns fósseis de espinossauro mais completos pra poder inferir como Oxalaia se pareceria aproximadamente!


Figura 5. Relações de parentesco entre os espinossauros. Imagem de Arden et al. 2019.

Baryonyx walkeri e Suchomimus tenerensis são bons candidatos (fig. 6). E quando Oxalaia quilombensis foi descrita em 2011, nós já os conhecíamos há décadas! A gente não pode dizer que os Oxalaia eram exatamente como os Baryonyx ou os Suchomimus. Afinal, os Oxalia era parentes mais próximo de outros espinossauros (fig. 5), como Spinosaurus aegyptiacus e Irritator challengeri (outro espinossauro do nordeste brasileiro!). E apesar do parentesco próximo com os Spinosaurus (do qual o paleoartista autor do Oxalaia da figura 1 se aproveitou para colocar uma vela no dorso), também não se pode concluir que os Oxalaia necessariamente teriam uma cauda bizarra como eles. Pode ser o caso, mas ainda não sabemos. Mas o fato é que podemos desenhar, com base no parentesco e na anatomia e morfologia comparada dos espinossauros, um formato geral para Oxalaia!


Figura 6. Suchomimus tenerensis (acima) e Baryonyx walkeri. Elementos preservados estão destacados. By Jaime A. Headden (User:Qilong) – http://qilong.wordpress.com/2010/05/21/croc-snouted-lizards-a-mystery-in-gadoufaoua/, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=47668729.

Percebe? Não é puro achismo. Não somos fantasiosos, imaginativos e inescrupulosos. Quando reconstruímos bichos completos com base em fragmentos, na verdade estamos considerando diversos aspectos (inclusive muitos que eu omiti aqui pelo bem da simplicidade), como anatomia e relações de parentesco. Essa é uma abordagem cujos princípios remontam ao próprio Georges Cuvier e a aurora da paleontologia. Mas esse é outro assunto…

Gostou? Volte sempre!

Referências

Revisão sobre os espinossauros:
HONE, David William Elliott; HOLTZ JR, Thomas Richard. A century of spinosaurs‐a review and revision of the Spinosauridae with comments on their ecology. Acta Geologica Sinica‐English Edition, v. 91, n. 3, p. 1120-1132, 2017.

Descrição do Oxalaia quilombensis:
KELLNER, Alexander WA. et al . A new dinosaur (Theropoda, Spinosauridae) from the Cretaceous (Cenomanian) Alcântara Formation, Cajual Island, Brazil.An. Acad. Bras. Ciênc.,  Rio de Janeiro ,  v. 83, n. 1, p. 99-108,  Mar.  2011 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0001-37652011000100006&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  02  Oct.  2020.  https://doi.org/10.1590/S0001-37652011000100006.

Filogenia dos espinossauros:
ARDEN, Thomas MS et al. Aquatic adaptation in the skull of carnivorous dinosaurs (Theropoda: Spinosauridae) and the evolution of aquatic habits in spinosaurids. Cretaceous Research, v. 93, p. 275-284, 2019.

Um comentário

  1. Nossa, é um texto bem explicativo! Eu tinha essa dúvida um tempo atrás mas mesmo assim vim aqui ver. Pra quem é leigo que nem eu, o trabalho de vocês vai ser sempre incrivelmente bizarro, no bom sentido. Como que você bate o olho em algo e sabe que é um osso de um animal que nem existe mais? Mas na verdade vocês não olham só os ossos, tem um estudo gigantesco por detrás disso… olha, incrível. Parabéns!!!

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