Dentro da cabeça de um dos mais antigos dinossauros do mundo!

Figura 1. Buriolestes schultzi caçando em uma floresta triássica do sul do Brasil. Por Márcio L. Castro.

Por João Lucas

Nem só de “ossos” vive a paleontologia. E ainda bem, pois de outra forma nosso conhecimento seria bastante limitado. Tecidos moles podem conter informações importantíssimas sobre a anatomia, fisiologia e até comportamento de um animal extinto. Imagina quanta informação conseguiríamos se pudéssemos analisar um encéfalo de um dinossauro extinto? Pois é, elucidaríamos muito da neuroanatomia desses bichos! Aliás, apesar de não ser sobre dinossauros, eu já discuti um pouco de neuroanatomia de pterossauros aqui. Mas voltemos aos dinos!

Infelizmente, a preservação de moldes naturais de encéfalos é muito rara. Há uma forma de contornar isso, contudo.

Se a caixa craniana se encontrar bem preservada tridimensionalmente, é possível reconstruir o encéfalo por meio de procedimento de tomografia computadorizada, uma vez que as cavidades nessa caixa, que anatomistas formalmente chamam de neurocrânio, nos dão as pistas para reconstruir o encéfalo. Sim, a paleontologia vai muito, muito além da descrição (que é importante!) anatômica e morfológica dos fósseis. Para uma visão moderna da paleontologia de dinossauros, considere ler Dinosaurs Rediscovered: The Scientific Revolution in Paleontology (Benton, 2019)

Apesar das rivalidades, Brasil e Argentina estão juntos em pelo menos uma coisa: os mais antigos dinossauros do mundo são encontrados nesses países. Apesar do considerável número de fósseis, até pouco tempo um neurocrânio completo e bem preservado de algum desses dinossauros inexistia nas coleções. Isso mudou quando, em 2015, o paleontólogo Rodrigo Temp Müller (CAPPA/UFSM) descobriu o esqueleto fóssil de um dinossauro (fig. 2) de pequeno porte que habitou onde hoje é São João do Polêsine há cerca de 233 milhões de anos, durante o Triássico. O dinossauro, que é da linhagem dos sauropodomorfos (que incluir, portanto, os “pescoçudos”), foi batizado de Buriolestes schultzi (fig. 1).

Figura 2Buriolestes e Rodrigo Temp Müller.

Apresentando um neurocrânio bem preservado (fig. 3), o Buriolestes foi alvo de um estudo que reconstruiu o primeiro encéfalo completo de um dos mais antigos dinossauros do mundo! O artigo foi publicado no periódico europeu Journal of Anatomy e teve como autores os paleontólogos da UFSM Rodrigo T. Müller, José D. Ferreira, Flávio A. Pretto, Leonardo Kerber e o paleontólogo da USP Mario Bronzati.

Figura 3. Reconstrução do encéfalo do Buriolestes schultzi. Por Márcio L. Castro.

O encéfalo do Buriolestes schultzi tinha uma volume de aproximadamente 2,8 ml, enquanto que a massa corporal estimada é algo entre 4,35 e 6,65 quilogramas! What’s in your head, Buriolestes?! Segundo a pesquisa, o encéfalo tinha um padrão considerado bastante primitivo (no sentido de não ser muito especializado ou modificado, sempre em comparação aos outros dinossauros que vieram a existir depois), até mesmo similar ao de um crocodilo. O cerebelo contava com algumas estruturas específicas bem desenvolvidas, indicando que o Buriolestes era provavelmente um caçador que tinha visão aguçada e, por meio dela, rastreava suas presas. Por outro lado, o olfato desse dinossauro não era lá muito desenvolvido.

Apesar da carnivoria, Buriolestes, como já ressaltado, era da linhagem que viria a dar origem aos dinossauros saurópodes, que eram herbívoros e pescoçudos, como Brachiosaurus e Diplodocus. Por ser muito antigo, o estudo do encéfalo do Buriolestes permite uma comparação com os saurópodes e, assim, uma melhor avaliação do curso que a evolução dessa estrutura em particular seguiu. Os bulbos olfativos do Buriolestes são pequenos (e por isso a olfação não era lá muita coisa), nos saurópodes eles são bem desenvolvidos. O olfato mais aguçado dos saurópodes pode refletir um aumento na complexidade dos hábitos sociais, reconhecimento de plantas tóxicas com maior precisão, ou detecção de predadores.

E o estudo foi além. Você provavelmente já ouviu falar do “coeficiente de encefalização” (CE), que obtido dividindo-se a massa observada do encéfalo pela massa esperada para o encéfalo desse animal, que tem determinada massa corporal; a massa esperada é fruto de um procedimento estatístico que foge ao escopo desse post. De maneira geral, acredita-se que quanto maior o CE, isto é, quanto maior for a massa observada em comparação ao que é esperado, maior é a “capacidade cognitiva” desse animal. Como dinossauros são répteis, o CE foi calculado considerando-se dados dos répteis e, portanto, é chamado de “coeficiente de encefalização dos répteis” (CER). O CER do Buriolestes revelou-se maior que o dos dinossauros saurópodes, indicando que ao longo da evolução houve uma tendência de redução da encefalização desses dinossauros. Isso é curioso, pois é comum que ao longo do tempo as linhagens de vertebrados aumentem tenham o CER aumentado.

O trabalho de Müller e colaboradores, além de relvar alguns dos mistérios do encéfalo de um dos mais antigos dinossauros do mundo, ressalta mais uma vez a importância e a força da paleontologia brasileira. Por isso, parabéns aos autores! Salve, salve, paleontologia BR!

O artigo:

Müller, R.T, Ferreira, J.D., Pretto, F.A., Bronzati, M., & Kerber, L. The endocranial anatomy of Buriolestes schultzi (Dinosauria: Saurischia) and the early evolution of brain tissues in sauropodomorph dinosaurs. J. Anat. 2020; 00: 1– 19. https://doi.org/10.1111/joa.13350.

O livro mencionado:

BENTON, Michael J. Dinosaurs Rediscovered: The Scientific Revolution in Paleontology. Thames & Hudson, 2019.

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