Uma Arqueologia por e para o povo “Pequot do Leste” dos EUA

Um exemplo de como a Arqueologia pode impactar positivamente nas comunidades tradicionais.

Por: Luiza Vinhosa Rabelo


Arqueólogos e membros da comunidade Pequot do Leste.

Além de produzir conhecimento sobre o passado, a arqueologia pode desempenhar um papel social junto às comunidades, impactando positivamente na vida das pessoas que vivem no entorno ou que possuem algum tipo de relação com os sítios arqueológicos pesquisados. Mais do que isso, essas comunidades podem contribuir ativamente com a construção dos conhecimentos arqueológicos e científicos. Este é o trabalho que Stephen Silliman vem realizando desde 2003 junto à população indígena Pequot no sudeste de Connecticut (EUA) através de um projeto colaborativo entre os Pequot e a Universidade de Massachusetts – Boston. Os resultados desse trabalho foram publicados no artigo intitulado Authoring and Authority in Eastern Pequot Community Heritage and Archaeology no Journal of the World Archaeological Congress.

Shianne Sebastian, membro do povo Pequot, ajudando seu irmão Ashbow Sebastian no mapeamento do sítio-escola dos Pequot do Leste.

A pesquisa acontece no sítio arqueológico dos Pequot do Leste, localizado dentro da reserva dos Pequot. Essa reserva é reconhecida desde 1683 e até hoje é ocupada pelos indígenas, sendo uma das mais antigas dos EUA. Os objetivos principais de Silliman têm sido conduzir uma pesquisa arqueológica no sítio, oferecer oportunidade de treinamento aos estudantes da universidade e, principalmente, desenvolver uma arqueologia colaborativa junto à população que vive hoje na reserva, que é descendente dos produtores dos artefatos encontrados no sítio. Os indígenas compreendem a importância do projeto que acontece em suas terras tradicionais, pois consideram os artefatos encontrados como presentes materiais e espirituais oferecidos por seus ancestrais.

É importante ressaltar a grande importância da resistência Pequot diante do genocídio realizado pelos ingleses durante a conquista e colonização dos EUA nos séculos XVI e XVII, quando muitos indígenas foram assassinados ou escravizados. Em 1683, a reserva foi reconhecida, mas precisaram continuar lutando até hoje por sua sobrevivência e pela preservação de sua cultura e história. A arqueologia na reserva começou a partir de uma negociação entre os pesquisadores e os Pequot, que hoje veem a pesquisa arqueológica, da forma que é conduzida, como forma de proteger sua soberania sobre as terras, conservar seus recursos e desenvolver auto-suficiência para o povo e seus descendentes. Isso porque a arqueologia mostra que esse povo possui direito sobre as terras, já que seus ancestrais vem habitando aquele espaço há um longo período de tempo. Além disso, as descobertas arqueológicas são consideradas pelos indígenas como uma forma de honrar seus ancestrais e a terra, que são elementos de grande importância na cultura Pequot. Por isso, tem sido uma experiência importante para os jovens, adultos e idosos que habitam a reserva. Eles realizam rituais durante as escavações arqueológicas, que envolvem o uso de plantas e oferendas de tabaco acompanhadas por rezas em todas as unidades de escavação. Além disso, os Pequot são convidados a participar de todas as etapas da escavação, sendo integrados ao trabalho arqueológico.

Livro “Recuperando e criando memórias: O Sítio Arqueológico Escola dos Pequot do Leste, 2003-2013.”

Silliman também se preocupa em dar voz a essa comunidade, considerando não serem suficientes as publicações feitas por acadêmicos de fora da comunidade. É preciso integrá-los na produção do conhecimento. Isso foi feito através de um livro intitulado “Recuperando e Criando Memórias: O Sítio Escola dos Pequot do Leste, 2003-2013”, que apresenta imagens dos artefatos, fotos do projeto e informações sobre as pesquisas. O livro foi impresso e distribuído para o povo Pequot, tendo sido escrito não em uma linguagem acadêmica e sim em uma linguagem acessível para todos e a partir das vozes dos indígenas. O livro não tem autores individuais, mas seu conteúdo mostra quem são seus verdadeiros autores: os Pequot. Todas as imagens contidas no livro são dos indígenas que participaram de alguma forma das pesquisas.

Outro elemento importante, é que todas as coleções arqueológicas referentes ao povo Pequot que estavam no Museu de Massachusetts – Boston foram devolvidas para os indígenas. Desde o início das pesquisas, foi feito um acordo de que os artefatos só ficariam por um curto período de tempo na universidade para serem estudados e posteriormente seriam devolvidos. Durante 14 anos de projeto, os Pequot não tinham uma instalação de curadoria. Porém Silliman considerou que já era tempo dos artefatos serem devolvidos. O retorno para a comunidade ajudaria a garantir uma maior eficiência da transmissão dos saberes científicos produzidos, pois seria mais conveniente para visualizar, estudar e honrar os artefatos. Além disso, possibilitaria o desenvolvimento de workshops com os membros da comunidade, onde seria possível discutir e estudar. Outra maneira de integrar os Pequot na produção do conhecimento foi convidar alguns indígenas para serem autores do artigo citado no primeiro parágrafo, incorporando a visão dos Pequot que participaram dos trabalhos arqueológicos.

Para saber mais, assista o vídeo da aula ministrada por Stephen Silliman:

Vídeo da aula de Steve Silliman (UMass-Boston), sobre Arqueologia Colaborativa da Persistência Indígena: uma visão da América do Norte, no dia 08 de abril, no MAE-USP, como parte do curso de extensão “Construindo uma arqueologia Brasil-Portugal: pessoas, materialidades e colonialismo”

Artigo citado: DRING, K.S.; Silliman, S,W.; GAMBRELL, N.; SEBASTIAN, S.;SIDBERRY, R.S. Authoring and Authority in Eastern Pequot Community Heritage and Archaeology. In: Archaeologies: Journal of the World Archaeological Congress, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11759-019-09377-4

SOBRE A AUTORA DA MATÉRIA:

Luiza Vinhosa Rabelo é graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em Arqueologia pelo Museu Nacional/UFRJ, atuando principalmente nas áreas de História e Arqueologia indígenas.

PARA SABER MAIS:

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