A História do Mundo, por Jeremy Black – opinião de um arqueólogo

Na visão de um arqueólogo, poucos autores de livros de história se dão ao trabalho de incluírem uma síntese atualizada sobre a história humana antes do advento da escrita: a pré-história.

Por: J. C. Moreno de Sousa

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O professor Dr. Jeremy Black, historiador e autor de diversos livros de História voltado ao público leigo, é um destes poucos historiadores que fazem questão de se atualizar sobre as discussões no campo da pré-história humana e dar os devidos créditos aos nossos ancestrais mais antigos que 5.000 mil anos. Devemos dar este reconhecimento ao professor Black, já que a maioria dos autores de livros do tipo, ao entrarem neste campo que é de conhecimento mais de arqueólogos do que historiadores, costumam repetir os mesmos erros de ignorar a história dos primeiros hominínios, a história das culturas arqueológicas que se desenvolveram durante o Paleolítico Médio e Inferior na África e Ásia, e costumam utilizar a falsa noção de “Revolução Cognitiva” para se referir à origem das culturas do Paleolítico Superior na Europa – em uma visão pra lá de eurocentrista sobre a origem do desenvolvimento cognitivo dos humanos modernos. Também costumam insistir no erro da “Revolução Neolítica” do Oriente Médio, Egito e Europa, como sendo essa a suposta responsável pela origem das primeiras civilizações, ignorando totalmente os registros mais antigos para as primeiras indústrias cerâmicas do Japão, ou as primeiras indústrias de pedra polida na Austrália e na China.

Ainda que para arqueólogos e arqueólogas isto soe estranho e denote uma desatualização de mais de 30 anos de pesquisas científicas, livros recentes que se tornaram bastante populares continuam repetindo estes erros, e deixam claro que os autores continuam se atendo à arqueologia de meados do século passado. O maior exemplo disso é, provavelmente, o livro “Sapiens”, de Yuval Harari – um historiador sem qualquer experiência na pesquisa arqueológica, cujas ideias escritas em seu livro passam muito longe das discussões dos últimos 20 anos no campo da evolução humana. Não à toa, este livro é, para dizer o mínimo, mal quisto entre os profissionais da arqueologia.

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Professor Jeremy Black – autor de “A História do Mundo” e mais uma dezenas de livros de divulgação histórica.

Algumas semanas antes da publicação desta resenha crítica, a editora M.Books muito gentilmente nos enviou uma cópia do livro A História do Mundo: da Pré-história ao Século 21, da autoria de Jeremy Black, como cortesia. Não poderíamos deixar, é claro, de realizar esta resenha crítica sobre a obra.

O livro publicado em 2019 por Black, com uma versão brasileira traduzida lançada recentemente, em 2021, dá um fio de esperança para a divulgação científica da pré-história humana em livros de história. O objetivo da obra é introduzir o leitor leigo em História aos principais acontecimentos históricos no mundo, mas com foco principal no período histórico Europeu e Estadunidense. Ele ainda dá um pouco de atenção ao período histórico no continente africano e asiático (ainda que tenha deixado de lado muitos fatos históricos importantes destes continentes). O período histórico da América do Sul, por outro lado, é completamente ignorado pelo autor – ou seja, não espere ver nada sobre a história (ou pré-história) do Brasil neste livro que se propõe a tratar da “História do Mundo”. É claro que, em sínteses que abrangem períodos tão grandes e áreas geográficas tão grandes, não se pode esperar o mesmo detalhamento de livros que realizam cortes específicos no espaço-tempo da história do mundo.

Enquanto arqueólogo, eu gostaria de atentar aos capítulos dedicados à pré-história do mundo: os capítulos 1 e 2, que tomam desde a páginas 16 à página 52 do livro. O autor realizou uma boa síntese de 36 páginas da história da humanidade desde 4.500.000 anos até 5.000 anos atrás. A síntese encontra-se bem atualizada para o que se propõe a apresentar. Claramente, Black, que chegou a lecionar no Departamento de História da University of Exeter quando produziu o livro, se atentou aos debates que seus colegas do Departamento de Arqueologia participam atualmente.

Ainda assim, Black não se atualizou sobre o campo da evolução humana em relação aos hominínios mais antigos de 5 milhões de anos. Em sua síntese sobre os últimos 10 milhões de anos ele aponta o Ardipithecus ramidus como o mais antigo conhecido, sendo que há duas décadas já conhecemos o Sahelanthropus tchadensis, datado em 7 milhões de anos, além de outras espécies quase tão antigas, como o Orrorin tugenesins e o Ardipithecus kadabba. Esta parte da pré-história humana, que inclui todos os períodos do Paleolítico, se resume em apenas 10 páginas. O período de 11 mil a 3 mil anos é mais longo, mais ainda resumido em apenas 20 páginas. O período histórico, de apenas 3 mil se delonga por cerca de 200 páginas. Ou seja, o número de páginas é inversamente proporcional ao número de anos relatados no livro – um fator comum em livros produzidos por historiadores, que focam, principalmente, nas evidências escritas dos últimos 3 mil anos.

Apesar do livro estar mais atualizado em termos de pré-história da humanidade em relação a outros livros de história do mesmo gênero, ainda faltam algumas informações sobre acontecimentos importantes for do eixo EUA-Europa. No entanto, nas palavras deste arqueólogo que vos fala, que não possui qualquer experiência no campo da História, a obra parece ser uma boa referência para uma síntese histórica dos principais acontecimentos que moldaram o mundo moderno nos últimos 5.000 mil anos – que é justamente ao que Black se propõe. Deste modo, o livro é uma boa opção para quem quer se introduzir à história da humanidade antes de buscar obras especializadas sobre determinados acontecimentos históricos, ou mesmo sobre a pré-história (período de maior foco da arqueologia). Como um bônus, o livro é fartamente ilustrado, sendo bastante convidativo ao público leigo e se mostrando como uma boa obra de divulgação de História.

O livro está no catálogo da M.Books. Clicando aqui você poderá ter acesso a algumas páginas do livro em PDF, além de links de lojas onde o livro pode ser adquirido.

Sobre o autor da resenha:

J. C. Moreno de Sousa é arqueólogo, especialista na antiga tecnologia de pedras lascadas e no estudo da ocupação inicial das Américas pelos primeiros seres humanos. Tem título de doutorado duplo em arqueologia pelo Museu Nacional (UFRJ) e pela University of Exeter (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Foi criador da rede de divulgação científica Arqueologia e Pré-História, da qual participa atualmente como colaborador.

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