Os esqueletos das classes sociais na Inglaterra medieval

Por: Victor Guida

A partir do esqueleto podemos identificar fragmentos da história de vida de uma pessoa, como o que ela comia, com o que trabalhava e quais doenças tinha. Mas não para por aí. Ao juntar informações dessa história de vida com o contexto sociocultural em que uma pessoa viveu, é possível saber como ela estava inserida na sociedade e como sua vida foi afetada por ela. 

Um exemplo disso é a pesquisa liderada pela bioarqueóloga Jenna Dittmar, que traz evidências das diferentes condições de vida e trabalho da sociedade da cidade de Cambridge durante a Idade Média, por volta dos séculos X a XIV. Para isso, a equipe analisou 314 esqueletos que estavam enterrados em três cemitérios de classes sociais distintas em busca de lesões ósseas referentes a trauma, que podem estar associadas a acidentes, violência e ao trabalho.

Um dos resultados obtidos foi a presença de uma maior quantidade de fraturas ósseas decorridas de acidentes e do trabalho nos esqueletos do cemitério da paróquia All Saints by the Castle, associado a população trabalhadora mais pobre. Com isso, essa pesquisa demonstra que indivíduos trabalhadores pobres estavam sujeitos a um maior risco de lesões acidentais e ocupacionais, indicando que viviam e trabalhavam em condições mais precárias que o restante da sociedade. 

Ainda, o artigo também relata que os ossos de indivíduos masculinos possuem mais lesões do que os femininos. Evidenciando que homens e mulheres realizavam diferentes atividades cotidianas e possuíam trabalhos bem distintos na Cambridge medieval.

Imagem: O Combate entre o Carnaval e a Quaresma. De Pieter Bruegel, o Velho (1559). Retirada de  Kunsthistorisches Museum Wien. 

Bioarqueologia Social

Esse tipo de pesquisa se enquadra em um campo recente e em ascensão chamado Bioarqueologia Social. É uma área que tem avançado em debates de problemas dentro da Bioarqueologia em relação a metodologias, ética, práticas laboratoriais, representatividade, entre outros assuntos.  

Mas, uma de suas maiores contribuições para a ciência e sociedade é a discussão de como populações do passado foram afetadas por desigualdade social, violência, racismo, colonialismo, discriminação etária e de gênero, e diversas outras. Dessa forma, obtemos informações que nos permitem não só uma melhor compreensão desses processos, mas também como impactaram as sociedades do passado e suas consequências no nosso mundo de hoje. 

Artigo citado: Dittmar, JM, Mitchell, PD, Cessford, C, Inskip, SA, Robb, JE. Medieval injuries: Skeletal trauma as an indicator of past living conditions and hazard risk in Cambridge, England. Am J Phys Anthropol. 2021; 1– 20. https://doi.org/10.1002/ajpa.24225

Para saber mais:

Agarwal, SC, Glencross, BA (Eds). 2011. Social Bioarchaeology. Oxford: Blackwell Publishing.

Sofaer, JR. 2006. The Body as Material Culture: A theoretical osteoarchaeology. Nova York: Cambridge University Press.

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