EVIDÊNCIA GENÉTICA AUSTRALO-MELANÉSIA EM GRUPOS NATIVOS DA AMÉRICA DO SUL

Novos dados colaboram para o complexo quebra-peças da ocupação inicial das Américas.

Por J. C. Moreno de Sousa

Thomaz Ferraz
Hipótese proposta por Silva e colaboradores sobre a ocupação pré-colonial das Américas com base na evidência genética. Ilustração de Tiago Ferraz.

No dia 29 de março (2021) foi publicado no periódico científico internacional PNAS, um artigo apresentando novas evidências da presença de genes australo-melanésios em povos nativos da América do Sul, em especial da costa do Pacífico e da Amazônia. O estudo foi realizado por um grupo de pesquisadores brasileiros.

A presença destes genes de povos nativos da região da Austrália e da Melanésia já havia sido detectada em povos nativos da Amazônia anteriormente por Pontus  Skoglund e colaboradores. Estes dados foram publicados na revista Nature em 2015. De acordo com esse estudo, seria necessária a existência de pelo menos duas populações para explicar a diversidade genética nativa-americana, as quais teriam vindo pela Beríngia, mas uma delas seria formada por uma população que sofreu miscigenação na própria Beríngia, ou até mesmo na Sibéria como apontam novas evidência publicadas em 2020 por Chao Ning e colaboradores na revista bioRxiv. De acordo com o trabalho de Skoglund e colaboradores, essa miscigenação ancestral teria envolvido grupos relacionados aos primeiros americanos a chegarem às Américas e um ramo irmão dos australo-melanésios contemporâneos. Posteriormente, esta segunda população teria então entrado nas Américas a partir da Beríngia e se miscigenado mais intensamente com os ancestrais de algumas populações Amazônicas.

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Marcos Araujo Castro e Silva, doutorando em genética e biologia evolutiva. Autor principal do artigo publicado na PNAS.

Nosso trabalho vem, portanto, primeiramente demonstrar que a contribuição desta ancestralidade é muito mais difundida no continente sul-americano do que se pensava, estando presente em ambos os lados da cordilheira dos Andes”, disse o doutorando Marcos Araújo Castro e Silva do Instituto de Biociências da USP (autor principal do novo artigo) em entrevista exclusiva para o Arqueologia e Pré-História. “Os resultados também corroboram as evidências de que esta ancestralidade foi introduzida nas Américas a partir de migrações ainda no Holoceno inicial (ou mesmo em período anterior), isto porque a detecção do sinal em populações da Costa do Pacífico e da Amazônia, as quais divergiram muito provavelmente a aproximadamente 6-8.000 anos atrás, indica que a presença desta ancestralidade remonta pelo menos a essa idade”.

AS HIPÓTESES DA OCUPAÇÃO PRÉ-HISTÓRICA DO CONTINENTE AMERICANO

Estudos multidisciplinares da arqueologia nas últimas décadas, com base em diversas linhas de evidência, mas principalmente da antiga tecnologia de pedras lascadas e dos estudos da anatomia de esqueletos antigos, resultaram em diversas propostas sobre como e por onde teriam chegado os primeiros grupos humanos nas América, sendo a maioria destas propostas tendo a Beríngia como a principal rota de entrada. Atualmente, as evidências paleoambientais apontam que a entrada pela Beríngia teria sido, a princípio, obrigatoriamente por navegação pela costa, uma vez que até pelo menos 12,6 mil anos atrás o caminho até o interior do continente estaria bloqueado pelos glaciais, e a única área onde não havia gelo (o ice-free corridor) era um ambiente inóspito, sem nenhuma presença sequer de vegetais ou outros animais. Ou seja, uma ocupação vinda por terra só seria possível mais ou menos na mesma época em que a famosa Cultura Clovis, na América do Norte, já estava desaparecendo. Estudos das últimas três décadas também apontam uma travessia transatlântica vinda do sudeste europeu (mais especificamente de grupos associados à cultura Solutreense), que deixou evidência cultural de sua ocupação na costa atlântica da América do Norte (e que viria a causar certa influência na Cultura Clovis), uma possível variação anatômica em esqueletos da América do Norte e, de acordo com alguns pesquisadores, até possível evidência genética. Para a América do Sul, todas as evidências para sítios de até 13 mil anos de antiguidade apontam para grupos que desceram da América do Norte diretamente para cá, produzindo uma grande diversidade cultural, mas com esqueletos que possuem uma anatomia majoritariamente australo-melanésia. Na América do Norte, essa anatomia seria muito mais diversificada antes de 8 mil anos, apresentando esqueletos de anatomia australo-melanésia, europeia e asiática.

A presença de humanos na América do Sul antes de 13 mil anos também já é conhecida (como os sítios de Monte Verde, no Chile; Santa Elina, no Mato-Grosso; Boqueirão da Pedra Furada, no Piauí; e Taima-Taima, na Venezuela). Evidências antigas assim também foram encontras na América do Norte (como nos sítios de Meadowcraft, no nordeste dos EUA; Page Ladson, no sudeste dos EUA; Topper, no sudeste dos EUA; Debra L. Friedkin, no sul dos EUA; Gault, no sul dos EUA;  Chiquihuite cave, no México; entre outros localizados principalmente na costa leste dos EUA). Mas as evidências de uma dezena de sítios tão antigos são muito escassas em comparação às centenas de sítios datados entre 13,5 e 8 mil anos atrás nas Américas. Estas ocupações mais antigas de 13,5 mil anos eram provavelmente de populações muito menores, e das quais ainda não há base suficiente para boas hipóteses sobre sua chegada às Américas.

Já com relação aos grupos de maior população, que chegaram entre 13,5 e 13 mil anos e ocuparam todas as partes do continente americano, estudos com base na cronologia das ocupações indicam uma ocupação muito rápida, o que poderia ser explicado por rotas que permitem essa velocidade, principalmente a navegação pela costa e grandes rios.

Nossos modelos de história populacional indicam que a hipótese de povoamento do continente Americano (e sul-americano) pela rota da Costa do Pacífico é a mais provável, em comparação a uma possível expansão pelo interior do continente”, afirma Silva. “Nossos resultados portanto delimitam mais claramente no tempo (de ~8,000 anos atrás até a entrada na América a pelo menos ~15.000 anos atrás) e no espaço (povoamento pela rota da costa do Pacífico) como ocorreu a introdução da ancestralidade Y e desta forma pode guiar o surgimento de novas hipóteses a serem testadas. Além disso, nós também demonstramos que existe grande variabilidade do sinal entre diferentes populações e também entre indivíduos das mesmas populações, e por fim não encontramos nenhuma relação entre a presença desta ancestralidade e a diversidade etnolinguística”.

Considerando apenas a anatomia dos esqueletos, principalmente a morfologia craniana, o bioantropólogo brasileiro Walter Neves e colaboradores notam que na maior parte do continente sul-americano os primeiros grupos nativos (paleoamericanos) compartilhavam de um mesmo padrão de características morfológicas – o mesmo padrão encontrado em grupos australo-melanésios. No entanto os grupos nativos mais recentes (ameríndios), não apresentam as mesmas características, tendo uma morfologia craniana mais asiática, com exceção de alguns poucos grupos, como os Botocudos, que mantém a morfologia australo-melanésia. De acordo com Neves e colaboradores, essa mudança morfológica poderia ser explicada pela chegada de uma nova população no continente sul-americano durante o Holoceno Médio (entre 8 mil e 4 mil anos atrás).

Em 2018, um artigo publicado por Posth e colaboradores na revista Cell, apresentou dados de amostras de DNA antigo de indivíduos de todo o continente americano e de vários períodos. Apesar dos inúmeros problemas apontados por arqueólogos na interpretação desses dados devido à omissão de dados de outras linhas de evidência, o estudo não encontrou evidências que suportam a existência de uma linhagem genética distinta dos outros Nativos Americanos que explique a morfologia dos crânios paleoamericanos. “As análises [de Posth e colaboradores] indicam que houve uma substituição dêmica a partir de 9000 anos atrás, substituindo a população inicial, que apresentava maior afinidade com o indivíduo de Anzick-1” ¹, reforça Silva.

Quando foi feito esse achado inicial, em 2015, de que algumas populações do sul da Amazônia tinham uma afinidade maior com australo-melanésios em comparação com outros grupos nativos americanos, foi um resultado bastante intrigante. Era uma contribuição pequena (menos de 6%), mas estava lá, baseada em análises robustas e com bastante suporte estatístico. O mesmo ocorreu em 2018, com a análise de DNA antigo do material da Caverna do Sumidouro, de 10 mil anos, em Lagoa Santa. Até aí, mesmo para os geneticistas, o sinal australo-melanésio tinha um caráter meio anedótico e desconexo, quase uma curiosidade”, disse o geneticista Thomaz Pinotti, doutorando da Universidade de Copenhagen (Dinamarca) que não teve envolvimento com o estudo. O estudo de 2018 a que Pinotti se refere é aquele publicado por Moreno-Mayar e colaboradores na revista Science, do qual ele foi coautor.

O já mencionado estudo de 2015, de Skoglund      e colaboradores, inferiu que algumas populações amazônicas teriam sido formadas por pelo menos duas populações distintas: Uma população inteiramente formada pela ancestralidade dos primeiros nativo americanos e uma segunda população envolvendo uma mistura entre os primeiros (ou grupos proximamente relacionados a eles) e um ramo irmão dos atuais Australasianos, dando origem à “população Y”, que teria um grande componente não-beringiano.

O nosso artigo refina esses resultados, e demonstra que a ancestralidade Y já chegou às Américas introgredida no genoma dos Primeiros Americanos, resultado de uma miscigenação ainda na Beríngia ou mesmo antes disso. Sendo assim, pode-se dizer que a ancestralidade      australasiana, ou Y, sempre teve baixa frequência na América. Além disso, nenhuma associação entre a ancestralidade Y e a morfologia paleoamericana foi demonstrada, somando-se a isso o fato de que nem todos os indivíduos que apresentam esta morfologia apresentam este sinal de afinidade genética, eu diria que nosso trabalho não corrobora a hipótese de Neves, pelo menos à luz das evidências atuais”, defende Silva.

Ainda que as evidências genéticas não corroborem exatamente a hipótese de Walter Neves, as evidências da mudança na morfologia craniana continuam sem uma explicação em termos genéticos.

A AUSÊNCIA DE EVIDÊNCIAS NA AMÉRICA DO NORTE E CENTRAL

Uma das preocupações nos dados do trabalho de Silva e colaboradores é ausência de evidências na América Central e na América do Norte, já que seria esperado que os genes de povos do Pacífico fossem encontrados nesses subcontinentes, uma vez que eles também propõem a vinda pela Beríngia.

Nossos resultados evidenciam que a hipótese de povoamento do continente americano pela rota da costa do Pacífico é a mais provável para a chegada dessa ancestralidade na América do Sul. Assim, é possível explicar a ausência desta ancestralidade na América Central e do Norte utilizando as próprias premissas desta hipótese, segundo as quais, em linhas gerais, os primeiros americanos teriam permanecido apenas na costa do Pacífico e áreas adjacentes devido às suas estratégias de subsistência e outros aspectos culturais adaptados à vida no litoral. Por este motivo, pelo menos inicialmente a expansão teria ocorrido apenas através da costa do Pacífico, desde o Alasca até o sul do Chile, o que é suportado por evidências arqueológicas como o sítio de Monte Verde no sul do Chile”, ² disse Silva. Neste sentido, a hipótese de Silva e colaboradores vai ao encontro de vários arqueólogos que defendem a ocupação da América do Sul inicialmente pela costa, cujos sítios mais antigos estariam hoje embaixo d’água, já que desde então o nível do mar subiu mais de 100 m, e por isso não temos evidências de ocupação em todos os lugares da atual costa.

No entanto, a ausência destes genes por todo o continente pode ter uma outra explicação. “Uma possibilidade alternativa, mas não exclusiva, leva em consideração que grande parte das povos nativos americanos foram dizimados durante o processo de colonização europeia, de modo que hoje existe apenas uma fração da diversidade genética do passado, o que possivelmente pode ter ocultado a presença desta ancestralidade em algumas regiões onde de fato esteve presente no período pré-colonial”, explica Silva.

Sua ausência [se referindo aos genes] na América do Norte segue sendo desafiadora, e não dá para dizer que entendemos completamente a natureza desse sinal”, afirma Pinotti.

A IMPORTÂNCIA DA GENÉTICA DE GRUPOS NATIVO-AMERICANOS

Se você perguntar para um arqueólogo qual a importância de estudar grupos nativo-americanos, a maioria das respostas tenderá para a importância da história e evolução biocultural de grupos dos quais muitos de nós temos alguma ancestralidade. Outros focarão sobre a importância destes grupos em questões ambientais e/ou injustiças cometidas durante o período colonial que refletem e continuarão refletindo em nossas sociedades. Esta não é uma pergunta comumente feito à geneticistas.

Para Silva, que é geneticista: “A construção do conhecimento sobre a história dos povos nativos da América, sobretudo por parte dos brasileiros, é de extrema importância para valorização destes povos indígenas. Mas a geração deste conhecimento deve ser combinada a iniciativas de divulgação científica, como essa [da rede Arqueologia e Pré-História], de modo a permitir o acesso mais amplo da população. As populações indígenas e não-indígenas, sobretudo as latino-americanas, tiveram a sua história apagada ou contada apenas a partir da perspectiva e da ancestralidade dos colonizadores europeus, negligenciando na maior parte as suas origens nativo-americanas e africanas. Assim, resgatar a história destas ancestralidades a partir da perspectiva da informação genômica é um passo bastante significativo. Além disso, este trabalho foi planejado e executado de forma totalmente independente pelo nosso grupo, o qual é formado apenas por pesquisadores brasileiros, o que contribui para a emancipação da ciência brasileira e da nossa capacidade de utilizar as ferramentas de ponta na pesquisa em genômica, para contribuir com o resgate da nossa história”.

Ao tratar especificamente do genoma destes povos, de acordo com Silva “o conhecimento sobre a diversidade genética de populações humanas é imprescindível para a compreensão de diversos aspectos da saúde humana, como por exemplo para poder estimar a prevalência de certas doenças não apenas para as comunidades indígenas, mas também das população brasileira como um todo, dado os brasileiros apresentam em média 7-9% de ancestralidade nativa-americana”.

Também de acordo com Silva, nos últimos anos o custo médio do sequenciamento genético vem reduzindo bastante. “Isso possibilita que grandes contingentes populacionais sejam sequenciados (inclusive a população inteira de alguns países), e em pouco tempo se tornarão realidade avanços científicos como a medicina personalizada, onde por exemplo medicamentos e tratamentos poderão ser desenvolvidos de forma a se adequar às características genéticas de cada indivíduo ou grupo populacional, aumentando assim a eficácia dos tratamentos e reduzindo os riscos, como as reações adversas”, afirma. “Neste sentido, o estudo da diversidade genética nativa americana é indispensável e se tornará cada vez mais essencial para guiar o desenvolvimento de políticas públicas de saúde, para a melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento de tratamentos mais adequados tanto dos povos indígenas, quanto das populações não-indígenas”.

Essa importância sobre o estudo de povos nativos foi, inclusive um dos fatores que levou a equipe brasileira a realizar o estudo. “Os povos nativos americanos têm sido historicamente negligenciados e sub-representados em estudos da diversidade genética e evolução de populações humanas. Essa baixa representatividade nos painéis globais de dados genômicos leva a uma série de problemas, gerando por exemplo vieses na aplicação dos resultados de estudos de associação de marcadores genéticos moleculares a fenótipos, incluindo fenótipos de relevância médica, isto porque boa parte destes estudos é conduzida em populações europeias, cuja frequência e distribuição das variantes genéticas difere significativamente daquelas de populações nativas americanas”, afirma Silva. “A falta de dados sobre populações nativas da América, e também de amostras de indivíduos antigos, é particularmente problemática para o estudo da história profunda destas populações, dado que partes essenciais do quebra-cabeças da história podem estar sendo completamente ignoradas por não estarem presentes nos dados”.

Para o pesquisador, este artigo e outros trabalhos anteriores do grupo de pesquisas fazem parte de um esforço para aumentar a representatividade dos estudos sobre a diversidade genética das populações indígenas e não-indígenas brasileiras, essencialmente através:

  • De uma melhor amostragem de povos nativos (e miscigenados) de diferentes e corregiões;
  • Da produção de dados genômicos a partir de técnicas de ponta, em quantidade e qualidade suficientes para permitir o estudo de aspectos históricos, demográficos e evolutivos;
  • Da análise da diversidade genética.

Neste trabalho especificamente visamos investigar a distribuição da ancestralidade Y entre e dentro dos principais grupos etnolinguísticos da América do Sul e Central. Num primeiro momento nosso foco estava nas populações amazônicas e do planalto central brasileiro, onde esperávamos ser possível também encontrar este sinal. Foi portanto uma surpresa quando identificamos este sinal numa população da costa do Pacífico, separada pela cordilheira dos Andes das populações onde essa ancestralidade havia sido identificada anteriormente, nesse momento nós percebemos que havia uma história mais complexa a ser contada e com possíveis implicações sobre o povoamento inicial do continente americano”, diz Silva.

Para Thomaz Pinotti, que tem se debruçado sobre os estudos de paleogenética das Américas, “a importância do trabalho de Marcos Silva e colaboradores é o de ser o primeiro a abordar o problema em um caráter continental e demonstrar que o sinal em populações modernas não está restrito à Amazônia. Também está na costa pacífica do Peru e entre os Xavante, no MT. E de que talvez seja algo presente, em maior ou menor nível, em vários povos indígenas da América do Sul”. Para Pinotti, isso reforçaria a possibilidade de ser um componente presente nos primeiros povos a chegarem no continente, por uma via beringiana. “Pensando num quebra-cabeça em que começamos a montar pelas bordas, eu diria que o sinal australo-melanésio é uma das peças do meio, em que ainda não sabemos bem onde elas entram na figura final, ou que imagem formam. O trabalho do Marcos é um importante passo nessa direção, em que vão se basear os próximos estudos com DNA antigo e moderno, abordando o processo inicial de ocupação das Américas”, completa.

O DIÁLOGO ENTRE ARQUEÓLOGOS E GENETICISTAS

Uma das principais críticas feitas por arqueólogos nos últimos anos tem sido especialmente sobre os estudos realizados por geneticistas sobre antigos grupos humanos, que apesar de produzirem dados importantes para a arqueologia, geralmente realizam interpretações sobre grupos antigos considerando apenas a linha de evidência da genética, ignorando um século de pesquisas realizadas por arqueólogos a partir de diversas outras linhas de pesquisa.

Seria bastante interessante e produtivo a interação de pesquisadores destas diferentes áreas, inclusive para o aprendizado destes em relação às metodologias de análise e interpretação dos dados, o que certamente diminuiria os erros de interpretação e possibilitaria uma maior colaboração. Neste sentido, nosso grupo sempre tenta conciliar diferentes áreas do conhecimento na interpretação dos dados genéticos”, afirma Silva.

O já mencionado artigo de Posth e colaboradores publicado em 2018 chegou a ser debatido em congressos posteriores sobre a omissão de outras linhas de evidência ao tratar da ocupação inicial das Américas e a necessidade de maior debate de geneticistas com arqueólogos, principalmente nos últimos anos em que arqueólogos também têm se debruçado sobre a arqueogenética.

Acredito que a pesquisa sobre a história e pré-história requer inevitavelmente uma abordagem multidisciplinar. Mesmo antes das metodologias genéticas passarem a ser usadas para investigar questões destas áreas, o corpo de evidências já era formado não apenas pela arqueologia e história mas também pela integração de outras ciências (e.g. linguística, antropologia, etnografia, paleoclimatologia e paleobotânica). Desta forma, a genética deveria, na minha opinião, ser entendida apenas como mais uma ferramenta nesse conjunto, sendo que ela tem um poder maior para responder um conjunto específico e não necessariamente exclusivo de questões, o que obviamente também é o caso das outras ciências”, defende Silva. “Neste sentido, eu acredito que, precisamos de mais abordagens multidisciplinares tanto para evitar a interpretação incorreta da literatura de outras áreas do conhecimento, quanto para que as diferentes fontes de evidências possam ser integradas e interpretadas em conjunto da melhor maneira possível, de modo que idealmente nenhuma linha de evidência seja ignorada e que toda a informação disponível possa ser usada para preencher as lacunas que inevitavelmente fazem parte do que é possível se conhecer a partir de apenas uma ciência”.

Neste sentido, a busca pelo diálogo não deve partir apenas da arqueologia, mesmo que esta seja uma ciência multidisciplinar por natureza. Geneticistas estão finalmente buscando dialogar com os arqueólogos. Afinal, mesmo que dados obtidos por diferentes linhas de evidência sejam discordantes, não se pode tomar apenas uma delas como verdade absoluta. É preciso montar todas as peças do quebra-peça para entender a história de nossos ancestrais. Ou seja, é preciso que todas as linhas de evidência sejam consideradas na discussão da ocupação pré-colonial das Américas. A evidência genética é apenas mais uma das muitas estudadas pelos especialistas no tema e não deve ser vista como algo que reescreve a história profunda das Américas, mas algo que deve ser somado às outras evidências produzidas por pesquisadores há mais de um século.

NOTAS

  1. Anzick-1 se refere a uma craniana de uma criança encontrada em um sítio com artefatos típicos da cultura Clovis, em Montana, EUA. No entanto, dentre os problemas em associar este indivíduo com a Cultura Clovis então o fato dos achados não serem provenientes de uma escavação arqueológica (sem registro da localização exata dos artefatos e dos restos humanos) e sua cronologia, já que apesar da recentemente tentativa de datar a calota craniana e os artefatos feitos em chifres de veado resultaram em apenas uma das amostras obterem datas contemporâneas, enquanto outras 3 amostras apontaram idades mil anos mais recentes. Três das quatro amostras obtidas do crânio resultaram em idades entre 12 mil e 11,2 mil anos. A quarta amostra resultou em uma data entre 12,9 e 12,7 mil anos. Neste sentido, parece haver um problema na quarta amostra. Todas as amostras de artefatos Clovis datam entre 13,1 e 12,7 mil anos.
  2. O sítio arqueológico Monte Verde tem datas que ultrapassam 18 mil anos, e com pesquisas em andamento que podem evidenciar ocupações muito mais antigas de até 33 mil anos.

Sobre o autor da matéria:

J. C. Moreno de Sousa é arqueólogo, especialista em tecnologia de pedras lascadas e no estudo da ocupação inicial das Américas, pesquisador de pós-doutorado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Foi criador da rede de divulgação científica Arqueologia e Pré-História, da qual participa atualmente como colaborador.

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