Pedras que contam histórias – GeoTour CCBB/RJ

Sabemos que as rochas e minerais estão presentes diariamente em nossas vivências, em nosso mundo e realidade. Estes materiais são testemunhos de inúmeras transformações, da Terra, da Vida, da Humanidade e da cultura humana. Não parece, mas nas pedras pode estar escrita a história de inúmeras disputas humanas.

Começando do princípio, qual a diferença de rocha, mineral e pedra?

Rocha é um conjunto de inúmeros ou um mineral que lhes conferem características próprias. Minerais são agregados de átomos que formam estruturas organizadas e que se repetem continuamente formando cristais. Pedras são rochas que foram alteradas ou modificadas pela ação humana.

Representação de um biface, uma ferramenta de pedra Fonte: Wikimedia Commons
Cristal de Halita (Sal) mostrando seu padrão de organização cúbico Fonte: Wikimedia Commons

Ficou confuso? Vamos lá. O sal de cozinha é conhecido como cloreto de sódio, feito por uma liga entre os átomos cloro e sódio. Eles se organizam num padrão cúbico. Quando se forma o sal é forma vários minúsculos cristais em forma de cubinhos que juntos podem formar uma rocha chamada de Halita. Uma rocha de sal. Esse tipo de rocha é comum em locais chamados de evaporíticos, pois dependem da evaporação da água para se formarem.

Ciclo das Rochas com as 3 tipologias e os processos de transformação de uma em outra representado pelos números
Fonte: Wikimedia Commons

Tendo isso esclarecido, as rochas são de 3 tipos: Ígneas ou Magmática, Sedimentares e Metamórficas. As primeiras vem do resfriamento da lava ou magma (4), seja debaixo da crosta da terra ou acima, em contato com o ar. A segunda é feita a partir dos sedimentos que são restos, caquinhos de outras rochas já existentes, que se acumulam em regiões mais fundas da terra (as chamadas Bacias Sedimentares). Com o acúmulo e peso das camadas, elas vão se transformando de areia, lama, argila solta em rochas dos diferentes tipos de sedimentos (1). Quanto mais fundo ficam esses sedimentos, mais perto eles ficam do manto (região derretida da Terra) e assim vão cozinhando, deformando e até derretendo um pouco, gerando as rochas metamórficas (3). Isso aqui é um breve resumo de um processo que permite a reciclagem da Terra e a liberação do nutrientes que permitem a vida como a conhecemos. E assim, se soubermos identificar as diferentes rochas, podemos contar suas diferentes histórias.

Calcedônia, um mineral bastante utilizado ao longo da história da humanidade. Fonte: Wikimedia Commons

Mas a rocha não está aqui apenas na história da vida, como também na história humana. As nossas primeiras ferramentas eram pedras. E não quaisquer uma, sílex e calcedônia. Estes são minerais que quando quebrados produzem bordas cortantes. Elas foram ideais para quebrar ossos, retirar-lhes o tutano e raspar carne das carcaças. Desde então tivemos as pedras como nossas grandes companheiras, nos tornamos verdadeiros “dobradores de terra”. Argila cozida faria cerâmica, pedras polidas fariam martelos e pilões, granito viraria paralelepípedo, mármore se tornaria escultura e hoje hematita vira aço em nossas casas, prédios e até celulares.

Foto da cidade de Paraty mostrando a paisagem e o uso de minerais e rochas, nas telhas, na pintura das casas, na vidraçaria das janelas e na estrada. Fonte: Wikimedia Commons

Tendo em vista a quase onipresença de rochas diversas em nossos prédios, muitos deles demonstram mais do que apenas a praticidade. A exemplo: “Essa pedra é dura e resistente a força, vou colocar ela na base do prédio”. Muitas vezes elas carregam significado, padrões e representações. No Rio de Janeiro, dada sua história, como capital do país carrega isso de maneira bastante visível, nas fachadas, no piso e na construção de seus prédios.

Fachada do CCBB RJ feita em Gnaisse Facoidal. Por Pedro Tolipan
Gnaisse Facoidal em detalhe, com os lineamentos escuros e os grãos claros entre eles (Facóide). Por Pedro Tolipan

A exemplo temos o CCBB ou o Centro Cultural Banco do Brasil localizado no centro da cidade. Sua fachada é formada da rocha mais abundante da cidade e uma das mais utilizadas nos prédios antigos da cidade, também chamada da mais carioca das rochas, o Gnaisse Facoidal. Uma rocha metamórfica formada nos processos de formação do Gondwana há 600 milhões de anos atrás, com o choque de dois outros antigos continentes que iriam dar origem a América do Sul e África. A cara dela é feita por grandes grãos em forma de lentes de minerais claros cercado por linhas de minerais mais escuros e menores.

Detalhe do piso do CCBB mostrando em branco o mármore Carrara e em Amarelo uma das variedades do calcário Lioz. Por Pedro Tolipan

Dentro do prédio, seu piso é formado pelo mármore Carrara, extraído do Leste da Itália. De grande valor comercial e cultural por sua pureza, quase sempre branco ou esbranquiçado. Entre as pontas das Lajes de Carrara, existem pequenos quadrados de calcário fossilífero português da região de Coimbra: O calcário Lioz. Conhecida como pedra real, este tipo de rocha tem origem num antigo mar da era dos dinossauros (90 milhões de anos).

Detalhe do Calcário Lioz em sua variedade Amarelo de Negrais com um fóssil em espiral, podendo ser um caracol, amonita ou mesmo um rudista de forma irregular. Por Pedro Tolipan.
Detalhe de um adorno em Lioz na variante avermelhada chamada Encarnadão com um fóssil não identificado. Por Pedro Tolipan.

As características que as tornam atrativas são justamente os inúmeros fósseis dos bivalves rudistas que as formam e dão sua bela aparência. O rudistas foram parentes das ostras e mexilhões que cresciam de maneira bem diferente, acumulando muito carbonato de cálcio, possibilitando a formação de inúmeros recifes na região que hoje é Europa continental e norte da África.

Detalhe de rudistas (em branco) na variante do Lioz, Amarelo de Negrais. Por Pedro Tolipan

Eles são um marco arquitetônico da invasão, ocupação e colonização portuguesa, tendo um enorme valor, não apenas estético mas identitário e de poder. E ele não é único, havendo variações de cores, do bege, passando pelo amarelo/alaranjado (chamado Amarelo de Negrais) até alaranjado até o vermelho (denominado Encarnadão). Este calcário compõe a base das colunas que sustentam o salão central do CCBB e detalhes no piso.

Detalhe da base das colunas da câmara central do CCBB, mostrando o Lioz bege e os fósseis em coloração cinza quase translúcida.
Por Pedro Tolipan
Detalhe da pédra do rodapé adaptado em um jardim de pedras de cerâmica e um pequeno banco. Por Pedro Tolipan
Detalhe do serpentinito no rodapé. Por Pedro Tolipan

No rodapé está uma rocha preta-esverdeada com linhas claras, listradas entre branco e verde claro. Esta rocha é um serpentinito, uma rocha metamórfica única. Ao invés de ser derretida e pressionada, ela sofre de metamorfismo pela mudança brusca de baixa pressão e temperatura. Ela se forma em regiões de separação de continentes.

Detalhe do rodapé de serpentinito, junto ao piso de Lioz e Carrara. Por Pedro Tolipan

Com a saída de rocha debaixo da crosta no fundo dos oceanos, ela sofre uma grande redução de pressão e temperatura, hidratando seus minerais, rachando e constituindo, assim, o serpentinito. Este material, para ser acessível a mineração precisa ser retirado do fundo dos mares até a superfície e isso só poderia ocorrer mediante forças tectónicas, elevadoras de montanhas, separadoras de continentes. E assim, o serpentinito que aparece aqui no Brasil veio do norte da Itália, dos Alpes, que um dia estiverem abaixo do mar, viram oceanos nascer e hoje são montanha que separam a bota da Europa do resto do continente.

Rocha da parede interna do CCBB mostrando um padrão “malhado” ou de vários hexagonos, que são um tipo de fóssil. Por Pedro Tolipan
Estromatólitos evidenciando o padrão que dá o nome ‘pele de onça’ às pedras. Por Pedro Tolipan

A parede acima do serpentinito temos um mármore cortado por veios de calcita e outros de areia. Algumas das lajes possuem um padrão anelar como se fossem pintas de leopardo ou jaguatirica. Essas rochas são chamadas pedras ‘pele de onça’.

Detalhe da pedra ‘pele de onça’ mostrando falhas e veios indicativos das mudanças de pressão e temperatura que essa rocha sofreu em sua transformação ao longo do tempo. Por Pedro Tolipan.

Elas são originarias de Ouro Preto (MG), de mais de 1 bilhão de anos. Os círculos são fósseis de bactérias que acumulavam sedimento em estruturas forma de coluna com várias camadas. Estas colunas são fósseis chamados estromatolólitos, os mais antigos macrofósseis que conhecemos na Terra, sendo registros das atividades de fotossíntese e quimiossíntese de bactérias e outros microorganismos. Estes nas paredes do CCBB são os fósseis mais antigos que conhecemos no Brasil.

Foto em detalhe de uma das paredes internas do prédio mostrando o serpentinito no rodapé e a pedra ‘pele de onça’ na parede com todas as suas falhas e modificações. Por Pedro Tolipan

Coimbra, Alpes, Toscana, Rio de Janeiro e Minas Gerais, vários locais distantes entre si, mas se encontram neste prédio dedicado às múltiplas facetas culturais humanas. E isso nos coloca em perspectiva: Tanta história pode e nos é contada pelas rochas, mas também pela nossa manipulação e intuito. Como criaturas vivas e atribuidoras de significação do mundo, trazemos nossas idéias, anseios, paixões, valores e necessidades para as rochas e pedras.

As transformamos em nossas representações de mundo e necessidade, criando e aprofundando nossas relações com este mundo. Temos então, que um prédio não existe sem a humanidade e tampouco sem a geologia de seus materiais. E quanto a você? Quanta história tem nas pedras que te cercam em sua casa? Ou na sua cidade?

Detalhe das lajes formadoras do piso do CCBB, com as pedras brancas sendo Mármore Carrara e os losangos menores fragmentos do Lioz, predominantemente o Amarelo de Negrais. Por Pedro Tolipan.

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